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Crise no Governo
Quinta, 30 de junho de 2005, 16h33 
Jefferson: mensalão continuou a ser pago
 
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Roberto Jefferson, com olho roxo, durante depoimento na CPI dos Correios
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O presidente licenciado do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), denunciou, durante depoimento à CPI dos Correios encerrado à 1h40 desta sexta-feira, que o "mensalão" destinado a comprar fidelidade política de parlamentares ao governo continuou a funcionar, mesmo após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomar ciência do suposto esquema, em março passado.

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Segundo Jefferson, a "mesada" de R$ 30 mil e R$ 50 mil deixou de ser repassada por meio de malas recheadas de dinheiro vivo, diretamente no Congresso, e começou a ser entregue em uma agência do Banco Rural, localizada no prédio anexo ao Brasília Shopping, na capital federal, para não levantar suspeitas. O petebista garantiu que a retirada dos resursos passou a ser feita por meio de assessores de deputados federais, na agência. O deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS) requereu à comissão que solicite o registro de todas as pessoas que estiveram no prédio desde janeiro de 2003.

Inquirido por Lorenzoni, Jefferson não soube precisar se o "mensalão" continua sendo operado, mas afirmou que o mesmo funcionava há bem pouco tempo atrás, na referida agência. "É só ir lá, no nono andar do Brasília Shopping, verificar os nomes dos assessores que foram receber o dinheiro, ou verificar o recibo que o Banco Rural manda assinar", disse o deputado.

Jefferson começou seu depoimento à CPI acusando o PT de tentar proteger e evitar investigações sobre o publicitário Marcos Valério de Souza, apontado como operador do suposto mensalão. O deputado referiu-se a ele como "versão moderna e macaqueada do PC Farias", em referência ao tesoureiro da campanha do ex-presidente Fernado Collor, pivô do escândalo de corrupção e tráfico de influência. Acusado de comandar o esquema de arrecadação de propinas nos Correios, Roberto Jefferson reafirmou que a corrupção atual no Palácio do Planalto é ainda maior que a registrada na era Collor e atacou também a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que, segundo ele, é a verdadeira mandante da gravação feita na estatal - a qual teria sido realizada por motivações políticas.

"Um partido que até ontem fazia da acusação a sua afirmação de luta. Do libelo pessoal contra pessoas a escada para subir, do cadáver de homens, troféus a ostentar para a opinião pública. Duro é quando esses cadáveres começam a repousar no nosso colo, e os fantasmas que eles representam a assombrar nossas bandeiras, nossas lutas", disse Jefferson.

"Como advogado do presidente Fernando Collor, tentei impedir que uma CPI como esta investigasse os fantasmas do PC Farias. Agora, os fantasmas se materializaram em Delúbio Soares e Marcos Valério. Os que viveram a glória no passado agora vivem o o próbrio que vivi. Os que no passado caçaram fantasmas agora se abraçam com eles", disse. E fez um trocadilho: "Se PC Farias, e fez, hoje Delúbio e Marcos Valério fazem e outros virão e farão também", disse.

O deputado reafirmou as denúncias já feitas contra o Banco do Brasil: "Tem que procurar o Banco do Brasil também porque me recordo que os recursos que recebi do Delúbio e do Pereira havia também notas do BB" (além do Banco Rural), denunciou.

Discussão e acusação no governo do RS
Houve momentos de tensão na CPI durante o inquirimento do deputado Henrique Fontana (PT-RS). Antes de fazer suas perguntas, o deputado gaúcho disse que Roberto Jefferson é um homem que já mentiu muito na vida, tem indícios de corrupção dentro dos Correios e apoiou governos corruptos ao longo da história do País. Fontana acrescentou que hoje Jefferson teria se transformado em um acusador-mor.

Ao responder à provocação, Roberto Jefferson citou o publicitário Marcos Valério, acusado pelo petebista de ser o operador do "mensalão": "Em todas as contas do PC Farias, passaram R$ 64 milhões. Só nas contas do Marcos Valério já passaram R$ 45 milhões. Fica só vendo aonde isso vai dar".

Jefferson disse também que Fontana tentava desqualificar seu depoimento e acusou o PT gaúcho de ter cometido irregularidades em campanhas eleitorais. Essas campanhas, segundo Jefferson, teriam sido financiadas pelo jogo do bicho. Ele citou o ministro das Cidades, Olívio Dutra, de ter participado das irregularidades. Jefferson afirmou ainda que não aceitava lição de ética e moralidade por parte de Henrique Fontana. "PC Farias é pinto perto do que se vê de corrupção no PT", disse o petebista.

Dirceu e "mensalão"
O deputado fez questão de incluir o tema "mensalão" na CPI, assunto que o governo e o PT querem manter distante da investigação. O relator Osmar Serraglio chegou a dizer que não aprofundaria o tema, alegando que o assunto não faz parte do "fato determinado" da CPI, que é investigar o suposto esquema de corrupção nos Correios. "Tecnicamente, me abstive de qualquer questionamento", disse o relator. "Não significa que tenhamos receio de mais para frente adentrar neste assunto", ressaltou Serraglio.

Durante as inquirições dos parlamentares, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu se tornou um dos principais alvos do depoimento de Roberto Jefferson. Jefferson responsabiliza Dirceu pelo envolvimento, ao lado do secretário-geral do PT, Silvio Pereira, pelo aparelhamento das estatais, nomeando aliados para o comando de empresas, mas dominando o restante das funções. "Era assim que funcionava: toda estrutura era montada com o Silvio Pereira e o martelo batido com Dirceu. Foi assim com todos os cargos que o PTB nomeou: o PT dava a cabeça e tomava o corpo. Era a maneira que o Silvio Pereira dizia que o PT tinha para governar", afirmou Jefferson.

O deputado confirmou ainda que o "mensalão" influenciou o processo de escolha para as presidências do Senado e da Câmara, ocorrido no início do ano. "O mensalão influenciou, pois desagregou os partidos da base do governo. Eu avisei o presidente que Luiz Eduardo Greenhalgh era um homem fraco politicamente, não moralmente. Ele chegava aqui, não cumprimentava ninguém e, depois que concorreu, passou a fazer isso. O Lula não quis mudar de candidato, e, mesmo assim, eu votei com o governo. Foi então que autorizei os deputados do PTB a votarem no Severino Cavalcanti, mas que eles fossem transparentes, para não desmoralizar a base", garantiu.

O presidente licenciado voltou a afirmar que Lula tomou providências assim que recebeu a informação sobre o "mensalão", em janeiro. Jefferson também isentou o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação de Governo, Luiz Gushiken, de qualquer participação nas reuniões para a negociação dos cargos.

Fraude em Furnas
Jefferson confirmou ainda as denúncias sobre o suposto esquema de corrupção na empresa Furnas Centrais Elétricas. "Assumo e assino a entrevista", disse, referindo-se à matéria publicada nesta quinta-feira na Folha de S.Paulo. Ele assinalou que sabia do esquema de distribuição de R$ 3 milhões de Furnas e disse que o esquema de costura dos cargos era feito em outras empresas, como a Eletronorte e o Departamento Nacional de Infra-estrutura do Transporte (Dnit).

Reforma política
Depois de desqualificar a gravação que deflagrou o escândalo de corrupção nos Correios, o deputado desviou o foco de seus depoimentos para um debate sobre a reforma política. Ele afirmou que seu partido defende a "despartidarização da máquina do Estado". Segundo Jefferson, é preciso reduzir o número de cargos de confiança na gestão federal. "Vamos reduzir para prestigiar e fortalecer o servidor público na sua carreira, a ascensão será por mérito e não partidária", argumentou Jefferson.

O deputado falou também que é preciso reduzir o número de deputados e senadores por Estados e também acabar com a figura do suplente de senador.

Financiamento de campanhas
Jefferson, no entanto, criticou a possibilidade de haver financiamento público para campanhas. "O financiamento público vai somar crimes, vai tirar do pobre em favor do vereador, do deputado, do senador, governador e prefeito", disse. Ele provocou reação dos parlamentares, entre eles o senador Saturnino Braga (PT-RJ), ao falar da prestação de contas das campanhas de deputado federal e senador. "Não há eleição de deputado federal que custe menos de R$ 1 milhão, mas a prestação de contas não passa de R$ 100 mil. Não há eleição de senador que custe menos de R$ 2 milhões", afirmou.

Mandato e cassação
Com riscos de ser cassado na Câmara por apresentar acusações sem provas, Jefferson repetiu que não teme perder o mandato. "Não vim mendigar em favor do meu mandato", disse. "Ninguém vai me acanalhar e colocar de joelho e rabo entre as pernas. Não sou ator e não faço o papel de herói. Não sou melhor que nenhum dos senhores. Não faço papel de vilão porque não sou", disse.

Rosto inchado e teatro
O deputado exibiu ao chegar à CPI o rosto inchado, com 12 pontos, segundo sua assessoria de imprensa, causado por um acidente doméstico ocorrido na segunda-feira passada. O deputado teria se desequilibrado ao subir numa escada quando procurava uma caixa de CDs do cantor Lupicínio Rodrigues e o armário no qual se apoiou caiu sobre a cabeça dele. Por causa disso, Jefferson teria pensado em desistir de prestar depoimento à CPI. O ferimento causou piadas e rumores no Planalto de que o autor da agressão seria o deputado José Dirceu.

Jefferson defendendo-se também das acusações de que vem protagonizando cenas teatrais em suas declarações. "Não vim desempenhar nenhum papel de artista. Se me julgam assim, eu queria pedir desculpas para tentar fazer as colocações que faço. Deixando de lado qualquer pendor, qualquer veia ocupacional artística que eu possa ter", disse. A sessão da CPI dos Correios começou às 16h30, com 2h30 de atraso devido a votações no Senado.

Delcídio faz balanço
Logo após o encerramento da sessão iniciada nesta quinta-feira, o presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS), fez um balanço positivo do depoimento de Jefferson.

"Eu acho que foi um depoimento amplo, que contou com a participação efetiva de todos os parlamentares e que trouxe outras informações, principalmente no que se refere à gravação, dentro de uma motivação política", disse o parlamentar à GloboNews.

Amaral ressaltou que o petebista insistiu, "de uma maneira absolutamente clara", que não possui ligação com algumas personagens citadas na gravação que deu origem à CPI. O senador disse acreditar que a fala do presidente nacional licenciado do PTB trouxe mais contradições frente aos depoimentos já ouvidos pela comissão, ao relatar o processo de contratações e de distribuição de cargos nos Correios.

Delcídio admitiu que algumas das declarações de Jefferson têm "efetivamente conseqüência, porém insistiu que "é preciso ouvir os fatos" na CPI.

O presidente da comissão disse ainda que poderá convocar uma acareação entre Roberto Jefferson e José Dirceu nos próximos dias. Falando aos parlamentares nesta quinta-feira, o presidente nacional licenciado do PTB se disse disposto a participar da mesma assim que for chamado.

O presidente da comissão também ressaltou a importância do depoimento de Marcos Valério, marcado para a próxima quarta-feira na Câmara de Deputados, lembrando que o publicitário mantém contratos junto aos Correios e outras estatais - os quais se encontram sob suspeita.

Jefferson deve perder sigilos
O Conselho de Ética da Câmara, que apura a quebra de decoro parlamentar de Jefferson por denunciar o "mensalão" sem apresentar provas documentais, irá solicitar a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefênico do petebista. Segundo o relator do conselho, deputado Jairo Carneiro (PFL-BA), os sigilos do publicitário Marcos Valério também devem ser suspensos nos próximos dias.

Além dessas medidas, o conselho também planeja convocar Valério e duas funcionárias do departamento financeiro da agência SMP&B (da qual é sócio) Simone Vasconcellos e Geiza Dias dos Santos. Ambas foram apontadas pela ex-secretária da agência Fernanda Karina Ramos Somaggio como responsáveis pela contagem, saques e distribuição de dinheiro supostamente destinado a abastecer o "mensalão".

O conselho também irá convocar os petistas José Genoino (presidente nacional do partido), Delúbio Soares (tesoureiro), Silvio Pereira (secretário-geral) e Marcelo Sereno (secretário de comunicação), além do ministro de Turismo, Walfrido Mares Guia (PTB).

Está prevista uma acareação entre os deputados Sandro Mabel (GO), líder do PL na Câmara, e Raquel Teixeira (licenciada pelo PSDB de Goiás). Raquel acusou o parlamentar de oferecer R$ 30 mil mensais e bônus de R$ 1 milhão para migrar para o PL. Raquel Teixeira é a atual titular da pasta de Ciência e Tecnologia do governo goiano.
 

Redação Terra