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Santa Maria prepara congresso e vigília para lembrar 1º ano de tragédia

24 jan 2014
13h47
atualizado às 13h47
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Após um ano da tragédia que matou 242 pessoas na Boate Kiss, em 27 de janeiro de 2013, a cidade de Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, preparou um congresso especial em memória às mortes dos jovens e para homenagear os sobreviventes e voluntários. A ideia partiu de Adherbal Alves Ferreira, presidente da Associação das Vítimas da Tragédia de Santa Maria, que criou um ciclo de palestras e de eventos que serão abordados em quatro pontos: psicologia, social, justiça e prevenção.

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“As homenagens já começaram desde segunda-feira (20 de janeiro). Porém, dias 25, 26 e 27 teremos o congresso. Nos dias 25 e 26 abordaremos a parte técnica e 27 começarão as homenagens. Serão assuntos relevantes e focaremos nessas quatro. Nunca houve um congresso dessa natureza no País e não poderíamos deixar em branco essa data. A importância vai ser para toda sociedade. Vamos debater o que aconteceu, como está agora e como será o futuro. Vai ser muito aproveitado em todos os âmbitos”, disse Adherbal.

Nos dois primeiros dias de congresso, 25 e 26 de janeiro, as atividades serão realizadas no auditório do prédio I do Centro Universitário Franciscano. Já no dia 27, a programação será voltada para homenagens, distribuídas na Universidade Federal de Santa Maria e na praça Saldanha Marinho.

O seminário começará às 9h deste sábado e o próprio presidente da associação fará a abertura dos eventos. Logo em seguida ocorrerá a leitura de um discurso enviado por David Stevens, diretor do Centro de Excelência para Redução de Desastres da Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo dia, no período da tarde, às 16h30 ocorrerá a apresentação do documentário “Janeiro 27”, dos produtores Luiz Alberto Cassol e Paulo Nascimento.

No dia seguinte, as atividades começam as 8h30, com um painel sobre prevenção e segurança de incêndios com representantes de empresas de segurança e bombeiros. De acordo com Adherbal, o quesito será um dos pontos fortes do congresso.

“O ponto alto será a parte de justiça e a prevenção, mas os quatro temas são importantes. A psicologia é muito ampla e atinge o familiar, o sobrevivente, o voluntário, até os próprios jornalistas. Da parte social também porque envolve as pessoas que não estão trabalhando, que vão ter dificuldade no futuro, etc. A justiça é o que a gente ainda não conseguiu e a parte da prevenção é uma parte muito ampla porque temos que debater as questões que estamos na atualidade, assuntos que mexem com nosso dia a dia. As pessoas têm que saber que precisam entrar nas adequações da lei”, disse o presidente da associação.

Na sequência haverá uma roda de conversa sobre prevenção e segurança de eventos com profissionais das áreas de segurança do trabalho, Ministério do Trabalho e Tecnologia em Eventos, seguido pela palestra de Ada Silveira, escritora do livro “Tragédia de Santa Maria – A midiatização da dor e do luto”.

Às 10h45 ocorrerá uma mesa redonda entre os integrantes da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, além de associações nacionais e internacionais convidadas com relatos de experiências. Já no período da tarde, às 13h45 está marcada uma palestra sobre atenção psicossocial, com um trabalho realizado por profissionais da saúde mental aos sobreviventes e familiares da tragédia.  Na sequência, haverá mais uma mesa redonda com a integração dos sobreviventes da tragédia, em uma sessão de depoimentos com pessoas que viveram e tentam superar traumas. A mediação será feita pelo professor e consultor de Desenvolvimento Humano Jorge Neiman.

Às 17h acontecerá a apresentação do projeto “Brasil Sem Chamas”, de Paulo Chaves, tenente coronel do Corpo de Bombeiros e especialista em proteção contra incêndio, seguido por um painel que mostra a atuação da Polícia Civil, Justiça, advogados e procuradoria no caso Kiss.

Já no dia 27 de janeiro de 2014, data que marca um ano da tragédia, às 9h haverá um ato cultural em homenagem às vítimas da Kiss na Universidade Federal de Santa Maria.

Fora do congresso, também estão agendados alguns eventos. Na madrugada do dia 27, às 3h ocorrerá uma vigília em frente à boate. Às 8h haverá uma marcha e protestos, que sairão da frente do Banrisul.

Em contato com o Terra, a prefeitura de Santa Maria afirmou que não irá reforçar a segurança da cidade por conta das manifestações. Segundo a administração municipal, o número de guardas civis só será aumentado caso haja necessidade por conta de uma possível “exacerbação” por parte dos manifestantes para que o patrimônio público seja protegido.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissandro - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

 
Fonte: Terra

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