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RS: familiares de vítimas de incêndio em boate iniciam vigília em praça

2 abr 2013
12h04
atualizado às 12h04
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Familiares de vítimas do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), farão uma vigília de ao menos 241 dias na cidade para que a tragédia não seja esquecida. O período da vigília foi escolhido em alusão ao número de pessoas que morreram no incêndio, ocorrido na madrugada do dia 27 de domingo.

Familiares de vítimas do incêndio se abraçam no primeiro dia da vigília, em Santa Maria
Familiares de vítimas do incêndio se abraçam no primeiro dia da vigília, em Santa Maria
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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A ação começou por volta das 8h desta terça-feira: com duas mesinhas e três cadeiras, começou a ser feita uma vigília na praça Saldanha Marinho, a principal da cidade, no centro. A intenção é fazer com que o incêndio na casa noturna não seja esquecido. Diariamente, uma família estará representada no local.

O primeiro a participar da vigília é o presidente da Associação dos Familiares e Sobreviventes da Tragédia em Santa Maria, Adherbal Ferreira. Ele vai ficar até por volta das 18h no local, com direito a um intervalo ao meio-dia, quando irá ao Ministério Público (MP) para se reunir com os promotores do caso da tragédia. Ferreira também vai acompanhar a entrevista coletiva dos representantes do MP no início da tarde, onde eles explicarão a análise que fizeram do inquérito da Polícia Civil e apresentarão a denúncia que será entregue à Justiça nesta terça.

"Faça chuva ou faça sol, estaremos aqui. Queremos chamar a atenção das autoridades, do poder público e da população em geral, para que a tragédia não seja esquecida, para que nossos sentimentos e nossas tristezas não passem em branco", disse ele.

Nas primeiras horas de vigília, várias pessoas já passaram para conversar com o presidente da associação, que ficou nas mesas instaladas ao lado do Banrisul, na praça, sob a proteção de uma marquise. A intenção é que, ainda nesta terça, seja instalada uma barraca em frente ao banco, que servirá de abrigo para os demais dias de vigília.

A secretária de Assistência Social, Cidadania e Direitos Humanos de Santa Maria, Ione Pinheiro de Lemos, foi uma das primeiras pessoas a parar no posto da associação. Ela ajudou a providenciar garrafas de água e salgadinhos para quem for ficar na vigília.

A comerciária Lívia Neusa Santos Oliveira também parou na vigília para combinar o dia em que ficará na praça. Ela é mãe de Heitor Santos Oliveira Teixeira, 24 anos, que morreu na tragédia. "A dor de um pai e de uma mãe que perderam o filho não vai passar. Temos que ficar aqui para lembrar que 241 jovens tiveram suas vidas ceifadas", afirmou Lívia, que se programou para ficar na vigília na próxima sexta-feira.

Outro que passou pela praça Saldanha Marinho para agendar sua participação na vigília foi o garçom Nei Carvalho Lopes, pai de Pamela Lopes, 19 anos. Ele vai fazer a vigília no último sábado de abril. "É importante essa atitude para que as famílias se unam", opinou Lopes.

O autor da ideia que originou a vigília também foi à praça para dar um abraço no presidente da associação. Gilberto Antolini, pai de Shaiana Antolini, que morreu na Kiss aos 22 anos, lançou a proposta durante um ato na praça Saldanha Marinho, no dia 27 de março, quando a tragédia completava dois meses. "A gente tem uma dor em comum, que foi perder nossos filhos, e não se conhece. Por isso, nada melhor do que promover esse encontro em praça pública. Não foi só os nossos filhos que nos tiraram. Arrancaram de nós também a nossa alegria”, ressaltou Antolini.

Nesta quarta-feira, das 8h30 às 18h30, familiares de outra vítima da tragédia assumirão a vigília. Ela ocorrerá sempre de segunda-feira a sábado. No último dia de cada semana, mais pessoas se reunirão na praça e farão, além da vigília, uma caminhada pelo calçadão de Santa Maria. 

Sobreviventes da tragédia também foram convidados a participar com suas famílias. A intenção é que a vigília dure, no mínimo, 241 dias, em alusão ao número de pessoas que morreram na tragédia.

Para 27 de abril, quando a tragédia completa três meses, integrantes da associação estão se programando para fazer a vigília começar durante a madrugada. Às 8h desse dia, será realizado na praça Saldanha Marinho o já tradicional "minuto de barulho", quando sinos de igrejas, buzinas de veículos e palmas lembrarão as vítimas da tragédia. 

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas. 

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio. No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

 

Fonte: Especial para Terra

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