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RS: família de vítima pede indenização por livro sobre tragédia na Kiss

Pais de jovem que morreu no incêndio entraram com ação que cobra R$ 100 mil

30 abr 2013
19h43
atualizado às 19h43
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O livro Kiss - Uma Porta para o Céu, do padre Lauro Trevisan, está envolvido em mais uma polêmica. Os pais da jovem Taís da Silva Scaphin de Freitas, 18 anos, que morreu no incêndio da Boate Kiss, ingressaram na Justiça contra a publicação. Abalada com o conteúdo da obra, a família pede a proibição da venda e o pagamento de indenização de R$ 100 mil por danos morais.

Lauro Trevisan lançou a segunda edição da obra sem os trechos polêmicos
Lauro Trevisan lançou a segunda edição da obra sem os trechos polêmicos
Foto: Terra

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Desde o lançamento, em março, o livro é alvo de polêmica. Alguns trechos teriam causado mal-estar entre familiares das 241 vítimas da tragédia, ocorrida em 27 de janeiro. A passagem mais polêmica é a que o autor dizia, na primeira edição, que haveria pessoas vivas no caminhão que levou os mortos da boate até o Centro Desportivo Municipal (CDM), local onde foram identificados os corpos.

Na página 5, a obra afirmava: “No auge da balada celestial, o Pai perguntou se alguém queria voltar. Dois ou três disseram que sim e foram encontrados vivos no caminhão frigorífico que transportava os corpos ao Ginásio de Esportes”. Essa passagem gerou uma notificação extrajudicial da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), que pedia a retirada de circulação da obra e explicações de Trevisan. 

A primeira edição do livro se esgotou e, da segunda, que está à venda, foram retirados os trechos contestados pelos familiares das vítimas. Além da passagem que falava sobre as pessoas vivas no caminhão, outro trecho desagradou a associação. Na página 11, ele usou o verbo "agonizar" no fragmento "Por que foram ceifados pela morte, sem dó nem piedade, aqueles que se dedicaram, num imenso gesto heroico de solidariedade, a salvar os que agonizavam em meio à fumaça funérea?!" A palavra também foi retirada da nova tiragem.  

Apesar de as passagens polêmicas terem sido ocultadas, os pais de Taís, o frentista Cleber Schapin de Freitas e a dona de casa Roselaine da Silva, ganharam um exemplar da primeira edição de um amigo. Segundo o advogado da família, Eduardo Weber Correa, ao contrário de ajudar o casal a superar a dor da perda da filha, a obra gerou forte abalo psicológico.

O advogado defende que a liberdade de expressão não pode se sobrepôr ao sentimento dos enlutados. “A situação psicológica da família estava mais ou menos controlada antes de ler o livro”, conta. Taís iria cursar o último ano do Ensino Médio da Escola Estadual Cícero Barreto e pretendia fazer vestibular para Engenharia Civil.

A ação está na 3ª Vara Cível da Justiça Estadual de Santa Maria. Até o final da tarde desta terça-feira, o juiz Paulo Afonso Robalos Caetano não havia julgado o pedido de liminar que pede a suspensão da venda do livro. O padre Lauro Trevisan não foi localizado para comentar a ação. A ré no processo é a Editora e Distribuidora da Mente, que publicou e distribui a obra e da qual o religioso é sócio.

Por conta do trecho polêmico sobre os corpos no caminhão, o padre foi chamado para depor à Polícia Civil, que investigava a possibilidade de ter acontecido um crime. Porém, essa hipótese já foi descartada pelo delegado Sandro Meinerz, responsável pelas investigações complementares relacionadas à tragédia. “Foi apenas uma frase no meio do livro. É um texto em sentido figurado, não tem nada a ver com os fatos. Para ser caracterizado crime, tem de ter uma conotação criminosa. Nós o ouvimos para tirar uma dúvida, a obra do padre é de ficção”, afirmou Meinerz. 

Nas 77 páginas da nova impressão, Lauro Trevisan foi novamente polêmico ao afirmar que, se o leitor achar bom, haverá "sexo no céu". Ele escreveu ainda que as pessoas não devem se deprimir e se revoltar, censurou os que buscam "a ambição deslavada" e citou até o cineasta americano Woody Allen para "descontrair".

"Anote na sua agenda que no céu há abundância conforme os desejos individuais, há muita alegria, música inesquecível, e muito amor nos corações. Haverá sexo por lá? Se você achar bom e tiver vontade, haverá. O céu é imune a qualquer possibilidade de saudade, mal-estar, carência e privação. O que você imaginar de bom e maravilhoso, ser-lhe-á dado. Esqueça essa ideia ingênua de passar o tempo todo vendo anjinhos tocando harpa. (...) Uma coisa é certa: pode haver muitas boates no céu, mas boates kiss nenhuma", escreveu o autor, que tem 78 obras publicadas.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas. 

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

 

Fonte: Especial para Terra

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