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RS: conclusão do inquérito da Kiss fica para a semana que vem

Laudo da espuma da boate deve ser entregue à Polícia Civil somente na segunda, o que atrasou o término do trabalho

15 mar 2013
22h46
atualizado às 22h52
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A expectativa pela conclusão do inquérito que investiga a tragédia da Boate Kiss ser concluído e entregue à Justiça na segunda-feira caiu por terra. No final da tarde desta sexta-feira, o chefe de Polícia do Estado, delegado Ranolfo Vieira Júnior, confirmou que o término foi empurrado para alguns dias adiante, sem data definida.

<p>O chefe de Polícia do Estado, delegado Ranolfo Vieira Júnior (à esq.) se reuniu nesta sexta-feira com os delegados responsáveis pelo inquérito Sandro Meinerz (de óculos) e Marcelo Arigony (de rosa)</p>
O chefe de Polícia do Estado, delegado Ranolfo Vieira Júnior (à esq.) se reuniu nesta sexta-feira com os delegados responsáveis pelo inquérito Sandro Meinerz (de óculos) e Marcelo Arigony (de rosa)
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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"Não teremos condições de concluir o inquérito na segunda porque ainda falta o laudo da espuma que havia na boate. Em contato feito com o IGP (Instituto Geral de Perícias), nos foi dito que, até o final da tarde de segunda-feira, o mais tardar no início da noite, esse laudo será entregue", afirmou o delegado Ranolfo, prometendo que a imprensa será avisada da data do término com 48 horas de antecedência. 

O laudo da espuma foi um pouco mais demorado, porque exigiu testes feitos até fora do IGP.  Uma das tarefas dos peritos foi fazer uma queima da espuma, para uma simulação da emissão de gases.  

No início da tarde de sexta-feira, por volta das 14h30, parte dos laudos do IGP sobre os pedidos feitos pelos delegados responsáveis pela investigação sobre a tragédia na Boate Kiss chegaram. Os documentos foram entregues na 1ª Delegacia de Polícia Civil (1ª DP) por dois peritos criminais, Osvaldo André Betat Basilio, que já esteve em Santa Maria no mesmo dia do incêndio da casa noturna, em 27 de janeiro, e Rodrigo Harstein.

Entre os laudos, está o documento a respeito do incêndio que tem 161 páginas com detalhes sobre saídas de emergência, da capacidade da casa noturna, o sistema de exaustores, as rampas de acesso e as barras que atrapalharam a saída das pessoas da boate. No material, estão incluídos a planta baixa do imóvel, desenhos, fotos e vídeos. Seis peritos trabalharam nesse laudo desde o dia da tragédia.  

Outro laudo que chegou hoje, com aproximadamente 30 páginas, diz respeito aos cinco extintores que havia na Kiss, incluindo o que não funcionou. Já estava em poder da Polícia Civil um laudo feito pelo IGP de Santa Maria, com cerca de 20 páginas, a respeito do local do incêndio.  

Os dois peritos que vieram a Santa Maria passaram a tarde de sexta-feira conversando com os delegados a respeito de algumas conclusões dos laudos. Uma delas é que a boate teria capacidades para cerca de 760 pessoas, considerando áreas que não eram de uso comum, como a chapelaria. O delegado Sandro Meinerz ficou satisfeito com os resultados: "Tudo o que a gente tinha dito antes os laudos confirmaram."

Uma das atrações do conjunto da obra dos laudos é um vídeo, obtido pela Polícia Civil de Santa Maria a partir do celular de uma vítima. Ele mostra o início do incêndio e o vocalista da banda tentando apagar o fogo com um extintor que não funcionou.

A análise desse material começará a ser feita pelos delegados responsáveis pelo caso durante o final de semana. "A partir da metade da semana, vamos estar concluindo esse trabalho e remetendo o inquérito para o Poder Judiciário", disse o delegado Ranolfo.

Depois que for entregue à Justiça, o inquérito deve ser digitalizado para que fique à disposição na internet. "É um documento público", disse Ranolfo.

Depoimentos no HUSM neste sábado
Neste sábado, o dia também será de depoimentos no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), durante o mutirão de atendimento a vítimas que estiveram na Boate Kiss. Uma sala foi disponibilizada pelo HUSM para que os policiais ouçam pessoas que presenciaram a tragédia e que ainda não fazem parte do inquérito. O objetivo da Polícia Civil é chegar o mais perto possível do número de frequentadores que havia na casa noturna na madrugada da tragédia, para comprovar que o local estava superlotado.  

Dono da boate será ouvido na segunda-feira
Outro depoimento que está pendente é o de Elissandro Spohr, o Kiko, um dos donos da Kiss. Ele já foi ouvido no dia 27 de janeiro, mesmo dia da tragédia, mas a Polícia Civil quer reinquiri-lo para confrontar versões dadas por testemunhas em depoimentos, que vão de encontro ao que disse o empresário. Ele será ouvido na segunda-feira, provavelmente pela manhã. Elissandro Spohr está na Penitenciária Estadual de Santa Maria, no distrito de Santo Antão, onde cumpre prisão preventiva com outros três suspeitos apontados como responsáveis pelo incêndio, Mauro Hoffmann, também sócio da Kiss, e os dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, o vocalista, Marcelo de Jesus dos Santos, e o produtor musical Luciano Bonilha Leão.

Presidente da Câmara esteve na delegacia
Nesta sexta-feira, ainda houve mais dois depoimentos importantes durante a tarde. O primeiro a ser ouvido foi o presidente da Câmara de Vereadores de Santa Maria, Marcelo Bisogno, que foi secretário de Controle e Mobilidade Urbana de dezembro de 2010 a abril de 2011. Ele foi chamado para esclarecer algumas dúvidas que ainda restavam sobre questões relacionadas a alvarás e fiscalização de estabelecimentos.

Outro que deu depoimento foi o subcomandante regional dos bombeiros, major Gerson da Rosa Pereira. Ele foi chamado novamente porque, em depoimento no dia anterior, o comandante regional dos bombeiros, tenente-coronel Moisés Fuchs, fez referência a alguns temas que só Pereira saberia responder.

No final da tarde de sexta-feira, quando a 1ª DP estava quase fechando, a arquiteta Cristina Gorski Trevisan passou na delegacia para confirmar que as plantas entregues na quarta-feira pela prefeitura à Polícia Civil eram mesmo do projeto de reforma sem ampliação da Kiss, de autoria dela. Esse projeto foi uma das polêmicas surgidas durante o inquérito, por não ter sido aprovado pelo Escritório da Cidade, restando seis apontamentos a serem corrigidos. Mesmo assim, a boate obteve o alvará de localização, já que a aprovação do projeto não era um requisito exigido por decreto municipal.  

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou mais de 230 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas. 


Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Fonte: Especial para Terra

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