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Sobrevivente que perdeu namorado na Kiss volta ao RS para 'despedida'

Jovem de 20 anos sofreu queimaduras em quase metade do corpo e relata drama vivido na boate onde morreram 241 pessoas

26 abr 2013
11h02
atualizado às 11h18
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Jovem visitará Santa Maria pela primeira vez após o incêndio, para participar de uma homenagem ao namorado
Jovem visitará Santa Maria pela primeira vez após o incêndio, para participar de uma homenagem ao namorado
Foto: Joyce Carvalho / Especial para Terra

Jéssica Duarte da Rosa, 20 anos, não queria retornar para a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. As marcas que carrega nos braços, nas costas e nas pernas lembram a madrugada do dia 27 de janeiro, quando, por pouco, não integrou a lista de mortos no incêndio da Boate Kiss. A realização de uma vigília para o namorado dela, Bruno Portella Fricks, 22 anos, uma das 241 vítimas fatais, mudou os planos da jovem.

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Será a primeira ida de Jéssica à cidade desde a tragédia. A jovem se recupera na casa dos pais, em Colombo, na região metropolitana de Curitiba (PR). Será também a primeira vez que verá os pais de Bruno desde janeiro. "Quando soube da vigília, não falei que iria, inicialmente. Conversei com a minha família e avisei que estarei lá. É uma forma de homenagear e também de me despedir", disse.

No dia em que Bruno morreu, Jéssica estava internada na UTI e não soube de nada. Quinze dias depois, depois de acordar e de tanto perguntar pelo namorado, a família revelou que ele não tinha resistido depois de ficar internado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. "Para mim, ele tinha conseguido sair da boate. Estou esperando ainda cair a ficha", diz.

Bruno e Jéssica se conheceram há cinco anos, quando estudavam no mesmo colégio em Santa Maria. Ela cursava o 1º ano do Ensino Médio, e ele, o 3º. Foram apresentados em uma excursão para uma festa e não desgrudaram mais. Era um dia 2 de fevereiro, mesma data da morte do rapaz, que havia se formado em Administração em 2012.

Natural de Esteio, na Grande Porto Alegre, a família precisou retornar à cidade natal dois anos depois do início do namoro, e o casal passou a manter um relacionamento à distância. Quando fez vestibular, ela não tinha outra ideia a não ser passar em Administração na Universidade Federal de Santa Maria. E conseguiu.

Evitar novas tragédias
Jéssica não tem problemas de conversar sobre o incêndio, desde que seus relatos sirvam para conscientizar as pessoas sobre a importância de evitar novas tragédias. "Meu maior motivo para falar sobre isto é a segurança da minha cunhada (a irmã de Bruno), que tem 15 anos, e do meu irmão, ainda pequeno. Aconteceu com a gente e eu não quero que aconteça com eles daqui a 10, 20 anos. Não quero pensar que eu poderia ter feito algo e não fiz", disse a jovem, que participou no Paraná de um encontro para discutir segurança contra incêndios.

"Poder fazer a diferença e chamar a atenção para isto até quando puder. Porque eu não vou esquecer. Minha cunhada também não vai esquecer. Se não houver consciência com 241 mortes... É a maior prova de que ninguém está livre. Eu achava que estava segura lá. Se achasse que não era seguro, não teria ido. Hoje, olhando para tudo o que aconteceu, não acredito que eu fui", afirma Jéssica.

Reabilitação e retomada dos estudos
Além dos ferimentos emocionais, Jéssica tem que lidar diariamente com a dor física. A estudante sofreu severas queimaduras nos braços, nas costas e nas pernas, quase metade do corpo. Depois de um mês de internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), faz fisioterapia todos os dias para recuperar o movimento do braço direito, seriamente afetado. Precisa usar, durante 23 horas por dia, uma malha especial que cobre praticamente todo o corpo e ajuda na circulação e cicatrização da pele. Ela acredita ter sofrido muitas queimaduras por ter ficado próxima ao teto da Boate Kiss, onde ficava a espuma que pegou fogo após um sinalizador ser disparado pelo vocalista da banda Gurizada Fandangueira.

"Nós estávamos nos banheiros e, quando saímos, já estava tudo tomado. Me agarrei nele (no namorado) e fomos em direção à saída. O que eu me lembro é que estava de salto alto e em um momento eu virei o pé e foi aí que me perdi dele. Não sei como, mas eu fui jogada para cima. Era como se estivesse por cima da cabeça das pessoas", lembra a jovem.

A sobrevivente passou por raspagens e enxertos na pele. Ainda passa por sessões de fisioterapia pulmonar porque também respirou o ar tóxico que matou tantos jovens, e precisa de acompanhamento de uma nutricionista porque perdeu 8 quilos desde o dia da tragédia. Ela toma suplementos, mas não consegue ganhar peso. "Parece que estou em duas vidas. Uma antes e outra depois do que aconteceu. Antes eu morava sozinha, era independente, namorava o Bruno, estudava. Aqui eu não tenho mais o Bruno e dependo muito da minha família", conta. A estudante também tem ido uma vez por semana para sessão com psicólogo.

Jéssica não tem saído de casa. Desde que chegou a Colombo, foram apenas dois momentos. O primeiro para participar de um evento em Curitiba que discutiu a segurança nas casas noturnas (ela viu uma chamada na televisão sobre o evento e decidiu entrar em contato com a organização, porque estava disposta a dar seu depoimento). A segunda foi a uma festa de aniversário de uma jovem que conheceu no encontro e que tinha contato com Bruno por causa do trabalho. "Não sei se vou ter coragem de frequentar uma boate de novo", diz.

A família de Jéssica está preparando camisetas para quem quiser participar da vigília em memória do namorado. A camiseta será trocada por doações dos participantes. Tudo o que for arrecadado com as camisetas será revertido em cestas básicas, que serão repassadas ou para famílias de vítimas da tragédia que estejam passando por necessidade ou para instituições de caridade. A família de Jéssica está procurando apoio para a confecção das camisetas.

Apesar de tudo isso, Jéssica já decidiu que vai retomar os estudos. Ela já tinha trancado o curso de Administração para tentar uma vaga em Engenharia Química quando aconteceu a tragédia. A estudante vai frequentar um cursinho preparatório para o vestibular em Curitiba e concorrer a uma vaga em Fisioterapia na Universidade Federal do Paraná (UFPR). "Nunca me imaginei trabalhando com algo de saúde, em hospital. Sempre gostei mais da área de exatas. Depois do que aconteceu, muita gente não quer voltar para o hospital. Mas eu tive apoio dos médicos, das enfermeiras. Me senti bem. Eles me salvaram. E vi como a fisioterapia pode mudar as coisas. Aprendi praticamente a caminhar de novo. Eu não conseguia me sustentar", diz.

Por causa das lesões no braço, Jéssica ainda não consegue escrever rapidamente, mas acredita que até o meio do ano já vai estar muito melhor. Assim ela vai conseguir fazer as anotações nas aulas com tranquilidade. Mais do que uma preparação para passar no vestibular, é uma retomada na vida de Jéssica, que quer ajudar outras pessoas com a nova profissão.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

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Fonte: Especial para Terra
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