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Jovens fazem homenagens aos namorados mortos na tragédia da Kiss

Grupo se reuniu no centro de Santa Maria e depois foi visitar sobrevivente no hospital

12 jun 2013
22h02
atualizado às 22h08
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No primeiro Dia dos Namorados depois da tragédia da Boate Kiss, um grupo não tem o que comemorar: seus parceiros de todas as horas morreram em decorrência do incêndio da casa noturna de Santa Maria (RS), em 27 de janeiro. Para não deixar com que a data seja um momento mais doloroso ainda, jovens “viúvos” se reuniram na praça Saldanha Marinho, no centro da cidade, para confraternizar, dividir as angústias e homenagear as vítimas.

Uma faixa com casais que foram separados pela tragédia foi estendida na praça Saldanha Marinho
Uma faixa com casais que foram separados pela tragédia foi estendida na praça Saldanha Marinho
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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A vigília ocorreu onde, desde o início de abril, a Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) montou um posto permanente. A cada dia, uma das 242 vítimas é lembrada por familiares e amigos.

Nesta quarta-feira, o local foi ocupado por namoradas e namorados das vítimas. Além das tradicionais fotos de quem morreu em decorrência do incêndio, havia balões em forma de corações. Também era distribuído um texto escrito pelo dramaturgo inglês William Shakespeare. Um trecho dizia: “A longa distância apenas serve para unir o nosso amor. A saudade serve para me dar a absoluta certeza de que ficaremos para sempre unidos”.

A mensagem vinha acompanhada de um pirulito em forma do coração. Corações de papel também decoravam a tenda da vigília. Neles, de um lado havia o nome de cada uma das vítimas e, do outro, o do respectivo namorado.Uma faixa com casais que foram separados pela tragédia também foi colocada.

A estudante Anne Braustein, 20 anos, foi à praça para fazer sua homenagem ao namorado que morreu na tragédia, Alisson Oliveira da Silva, 22 anos. “Queríamos fazer uma homenagem, já que iria ser um dia muito difícil para nós. Assim a gente se ajuda e lembra das coisas boas que passamos com eles”, diz Anne, que faz parte do Grupo dos Namorados da AVTSM, que já tem 21 membros, mas quer reunir mais gente. A turma conta com uma página no Facebook.

Uma das organizadoras da vigília dos namorados não pôde ir à praça Saldanha Marinho porque foi internada. Tatiele Arrial, 27 anos, sobreviveu à tragédia, mas perdeu o namorado, Marlon Matana, 21 anos. Ela se recuperava em casa, mas voltou a ser internada no Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo, em Santa Maria, devido à depressão e à perda de peso.

O grupo de namorados e namoradas planejava sair para jantar na noite desta quarta-feira, mas mudou os planos. Com a internação de Tatiele, eles foram visitá-la no hospital. “Vamos levar um chocolate para ela”, revelou Jarlene Moreira, 27 anos, que tem dificuldades para caminhar devido às consequências do incêndio. Com a ajuda de um andador, ela foi até a praça Saldanha Marinho para homenagear o marido, o soldado Leonardo Lima Machado, que morreu na tragédia aos 26 anos.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Especial para Terra

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