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Delegado sobre depoimento de gerente da Kiss: 'estratégia ultrapassada'

Na segunda-feira, em Porto Alegre, Ricardo de Castro Pasch afirmou na Justiça que policial interpretou “da forma dele" trechos sobre funcionamento da boate

20 ago 2013
17h21
atualizado às 17h23
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Ainda repercute o depoimento dado na segunda-feira, em Porto Alegre, pelo gerente da Boate Kiss, Ricardo de Castro Pasch, cunhado de Elissandro Spohr, o Kiko - um dos donos do estabelecimento e réu no processo criminal sobre a tragédia. Pasch disse que a Polícia Civil mudou trechos de seu depoimento no inquérito que apurava as responsabilidades pelo incêndio que causou a morte de 242 pessoas. De acordo com o gerente, alguns pontos ficaram “mal interpretados”, citando o delegado Sandro Meinerz, um dos responsáveis pelas investigações. O policial declarou nesta terça-feira que a estratégia do advogado Jader Marques, que representa Kiko e Pasch, é “antiga e ultrapassada”.

O delegado Sandro Meinerz, um dos responsáveis pelas investigações, se defendeu hoje das acusações do gerente da Kiss
O delegado Sandro Meinerz, um dos responsáveis pelas investigações, se defendeu hoje das acusações do gerente da Kiss
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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"Quando foi finalizado o meu depoimento, o policial disse para ler. Comecei a ler, contestei algumas coisas, e ele corrigiu. Nisso, o delegado Sandro chegou e pediu para segurar, para ver o depoimento. Quando eu fui reler o depoimento pronto, o Sandro entrou na sala e disse que queria fazer perguntas informais, mas, quando vi, ele estava digitando e perguntando sobre o andamento da boate. Quando me dei por conta... foi bem cansativo, peguei o celular e eram 22h20. Estava esgotado, assinei, não reli a outra parte que tinha modificado. Tem coisa que eu não disse, ele interpretou da forma dele", disse Pasch no depoimento dado na segunda-feira.

Entre os trechos contestados pelo gerente, estavam depoimentos sobre as obras na boate. De acordo com o documento policial, Pasch imaginava que as grades instaladas na frente da boate seriam rejeitadas pelo Corpo de Bombeiros. No entanto, ele diz que não falou isso. "Sobre as barras e portas, isso foi perguntado de outra forma. Agora, dizer que eu sabia que elas não iam passar pelos bombeiros...", disse, reconhecendo apenas que as barras atrapalharam a saída do público.

O depoimento de Pasch à Polícia Civil foi dado no dia 1º de fevereiro e acompanhado pelos delegados Sandro Meinerz e Luiza Santos Sousa e por um escrivão. De acordo com Meinerz, o advogado Jader Marques acompanhava o gerente. “O advogado dele estava lá esperando o Pasch na porta da delegacia”, relembra o delegado.  

Meinerz ressalta que não foi o único a acompanhar o depoimento do gerente e que Pasch assinou o documento, concordando com o que havia sido escrito. “Dizer isso agora é uma estratégia velha, ultrapassada e não criativa”, comenta o delegado, referindo-se à defesa de Elissandro Spohr. Ele contestou o fato de Pasch ter dito que estava “cansado” no final do depoimento: “Se trabalho o dia inteiro na delegacia e vou dizer que estou cansado, então não posso ser responsabilizado por nada?”, questionou.

Pasch havia sido indiciado pela Polícia Civil por homicídio qualificado com dolo eventual, mesmo crime pelo qual respondem os quatro réus do processo criminal. Mais adiante, o Ministério Público pediu o arquivamento do inquérito em relação ao gerente, o que foi acolhido pelo juiz Ulysses Fonseca Louzada. “Acho que ele (Pasch) deveria ser réu no processo e agora mentiu. No depoimento dele à Polícia Civil, ele apontou, de certa forma, responsabilidades do Mauro (Hoffmann, outro sócio da boate e réu no processo) e da mulher dele (Angela Callegaro, irmã de Kiko). Mas, infelizmente, o Ministério Público não levou em consideração o depoimento, tanto que ele agora figura como vítima”, conclui o delegado Sandro Meinerz.  

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
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