2 eventos ao vivo

Boate Kiss parecia labirinto na noite do incêndio, diz músico à Justiça

1 ago 2013
17h35
atualizado às 19h38
  • separator
  • comentários

Dois ex-integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que tocaram na Boate Kiss, em Santa Maria, na madrugada da tragédia que causou a morte de 242 pessoas, prestaram depoimentos na manhã desta quinta-feira no processo criminal sobre o fato. Eles foram ouvidos no Fórum de Rosário do Sul (RS), cidade em que moram. O guitarrista Rodrigo Lemos Martins afirmou que a casa noturna parecia "um labirinto de difícil saída" na noite do incêndio, devido à colocação de grades de proteção.

Guitarrista Rodrigo Lemos Martins relatou momentos de pânico durante incêndio
Guitarrista Rodrigo Lemos Martins relatou momentos de pânico durante incêndio
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

A tragédia da Boate Kiss em números
Veja como a inalação de fumaça pode levar à morte 
Veja relatos de sobreviventes e familiares após incêndio no RS
Veja a lista com os nomes das vítimas do incêndio da Boate Kiss

O primeiro a depor foi o baterista Eliel Bagesteiro de Lima, que também é taxista. Ele contou que, no dia 27 de janeiro deste ano, chegou à boate por volta da 1h20 e que levou de 10 a 15 minutos para chegar do camarim ao palco. "Eu nunca vi tanta gente lá (na Kiss). O pessoal dançava, mas meio espremido", declarou Eliel.

O baterista também relatou que o uso de fogos pela banda era comum e que já tinham feito isso na Kiss anteriormente. Porém, ele disse que o artefato de mão, usado pelo vocalista, Marcelo de Jesus dos Santos, dependia do repertório do show. Eliel acrescentou que, às vezes, os responsáveis pelos locais em que eles iriam tocar, como Centros de Tradição Gaúcha (CTGs), não permitiam o uso de fogos.

Eliel também disse que, na madrugada da tragédia, quase morreu esmagado quando estava tentando sair da boate. "Consegui sair na porta pequena não sei como. Estava tudo embolado", descreveu. O baterista também falou sobre as barras antipânico que teriam trancado muita gente. "Se não fosse aquilo ali (as barras), o pessoal tinha saído", comentou o baterista, acrescentando que algo estava trancando a saída do pessoal e que uma das portas estaria fechada, mas ele não conseguiu ver o que era porque "tinha muita gente na frente".

Baterista Eliel Bagesteiro de Lima afirmou que a boate estava superlotada no dia da tragédia
Baterista Eliel Bagesteiro de Lima afirmou que a boate estava superlotada no dia da tragédia
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

O outro depoimento do dia foi do guitarrista e vigilante Rodrigo Lemos Martins. Ele contou que, inicialmente, achou que o início do incêndio no teto da Kiss era um efeito de luz. Quando a espuma pingou no braço dele é que ele gritou para os colegas de banda sobre o fogo.

Além disse, ele contou que os artefatos usados pela banda não queimavam. "Calor não tinha. Pegava nas pessoas e nunca deu problema", mencionou Rodrigo. Ele deu uma nova versão para o início do fogo, relatando que ele só começou na música seguinte à do uso do artefato pirotécnico de mão.

Por apresentação da Gurizada Fandangueira, Rodrigo disse que ganhava R$ 100 e que quem o pagava era o percussionista Márcio de Jesus dos Santos, irmão do vocalista, ou o gaiteiro Danilo Jaques, que morreu na tragédia. Ele mencionou que, no dia 27 de janeiro, chegou a achar "estranho" o jeito que estava a casa noturna, depois de dois anos que não tocava lá, e que a espuma do isolamento acústico chegou a lhe chamar a atenção.

Ambos os músicos relataram que o uso de artefatos pirotécnicos pela Gurizada Fandangueira era rápido. Um falou que durava "de quatro e cinco segundos" e outro declarou que "era de menos de 10 segundos". Segundo o guitarrista e o baterista, o responsável pelos fogos era Luciano Augusto Bonilha Leão, descrito como "roadie" da banda nos dois depoimentos. Ele também é réu no processo criminal da tragédia.

Entre os réus, somente o vocalista da banda, Marcelo de Jesus dos Santos, compareceu à audiência desta quinta-feira. Os depoimentos foram comandados pela juíza Juliana Tronco Cardoso. Também estiveram presentes os advogados Mario Cipriani e Bruno Seligman, que defendem Mauro Hoffmann; Omar Obregon, que representa Marcelo; Gilberto Weber, defensor de Luciano Bonilha Leão; e Leonardo Santiago, em nome de Elissandro Spohr. Também fizeram perguntas os assistentes de acusação Jonas Espig Stecca e Álvaro Nozari e o promotor José Eduardo Gonçalves.  

Depois desta quinta-feira, são aguardadas as definições de quando serão ouvidas as mais de 50 vítimas listadas pelas defesas. O juiz Ulysses Fonseca Louzada está verificando todo o processo para ver se há alguma irregularidade a ser sanada e para que ele marque os próximos depoimentos, que devem ocorrer entre o final de agosto e o mês de setembro.  

Já está definido que um sobrevivente da tragédia falará no dia 19 de agosto, em Porto Alegre, assim como o gerente da Kiss, Ricardo Pasch. Outras vítimas devem depor em Caxias do Sul e Florianópolis (SC). Até agora, foram ouvidas 47 pessoas.    

Os quatro réus do processo que respondem pelas 242 mortes e os mais de 600 feridos estão em liberdade. Eles são acusados por homicídios qualificados com dolo eventual (doloso) e tentativas de homicídio qualificado.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
  • separator
  • comentários
publicidade