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Boate Kiss: em vigília, familiares de vítimas fazem "terapia coletiva"

27 abr 2013
06h36
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Desde a noite de sexta-feira, familiares e amigos de vitimas da tragédia da boate Kiss se reúnem na Praça Saldanha Marinho, no Centro de Santa Maria (RS), para dar conforto uns aos outros e fazer orações. A vigília, que seguiu durante a madrugada, marca o “aniversário” de três meses do incêndio na casa noturna, que aconteceu no dia 27 de janeiro e causou a morte de 241 pessoas.

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Pouco antes das 3h, parentes e amigos das vítimas organizaram uma roda de conversa, onde cada um foi convidado a fazer um relato do que sentiu em relação à perda que sofreu e como encarou toda essa situação. Foi um momento emocionante, em que todos puderam dividir sua experiência frente ao acontecimento trágico, em uma espécie de “terapia coletiva”. Cerca de 50 pessoas participaram. Houve familiares que vieram de fora de Santa Maria para participar, de locais como São Paulo (SP), Florianópolis (SC), Santo Ângelo (RS), Cachoeira do Sul (RS), Itaqui (RS), Uruguaiana (RS), São Borja (RS) e Alegrete (RS).

Um dos relatos foi da professora Helena Rosa da Cruz, mãe de José Manuel, 18 anos, e Mirella, 21, que morreram na tragédia. “Os dois saíram juntos do CDM (Centro Desportivo Municipal, para onde foram levados os corpos das vítimas) e vão ficar juntos para sempre. Se não for feita a justiça dos homens, a justiça de Deus jamais falha”, disse Helena.

O pintor Cezar Augusto Madruga Neves, pai de Augusto Cezar Neves, que morreu aos 19 anos, lembrou da noite em que seu filho saiu de casa para ir à Kiss. “Passei a camisa e calça do meu filho. Quando ele estava saindo de casa ainda disse que, se faltasse dinheiro para o táxi da volta, que ele me avisasse. Ele pulou a mureta na frente de casa e eu ainda disse ‘Vai com Deus, meu filho’”, relembrou o pintor, que acrescentou: “Não podemos nos calar”.

Os relatos foram interrompidos por volta das 3h20 deste sábado, horário aproximado em que teria começado o incêndio na Kiss. Os familiares se deram as mãos e rezaram um Pai Nosso. Depois, houve um minuto de palmas, em memória das vítimas.  

Depois da pausa, as experiências de cada um continuaram a ser divididas até por volta das 3h50, quando o grupo cantou junto a música “Vem Renascer”, do padre Antonio Maria.

“Foi uma oportunidade ímpar de os familiares se reunirem e darem seus relatos. Eles estavam precisando disso, desse momento de interação. Isso demonstrou que nós precisamos fazer isso mais vezes”, avaliou o presidente da Associação de Familiares de Vítimas da Tragédia de Santa Maria, Adherbal Ferreira.  

Cerca de 30 familiares permaneceram na Praça Saldanha Marinho em vigília. Outros foram para casa, mas devem retornar às 8h, quando será feito o já tradicional “minuto de barulho” para homenagear as vítimas da tragédia com sinos das igrejas, palmas e buzinas. A concentração será na praça, mas as pessoas são convidadas a participar de onde estiverem.

Outro evento dos três meses da tragédia que tem a participação de familiares das vítimas é uma caminhada organizada pelo Movimento Santa Maria do Luto à Luta. O nome do evento, Meu Partido É um Coração Partido, é para destacar que a iniciativa é totalmente apartidária.

Na programação, haverá distribuição de panfletos na Praça Saldanha Marinho a partir das 16h30 deste sábado. Depois, às 17h30, também na Saldanha Marinho, começa a concentração para uma caminhada. Nesse momento, as manifestações serão permitidas somente para familiares das vítimas da tragédia.

Para 18h30, está marcada a saída da caminhada até a Basílica da Medianeira. No trajeto, serão colocadas fitas pretas nos postes e nas árvores de um dos lados das vias do percurso, para simbolizar o luto. Do outro lado, serão amarradas fitas brancas, em referência à paz que os manifestantes estão buscando. Serão 241 fitas no total, em alusão ao número de vítimas da tragédia.

A missa na Basílica da Medianeira começa às 20h. Durante o sábado, haverá celebrações religiosas alusivas à tragédia em outras igrejas de Santa Maria.   

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra

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