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RJ: sem-teto retirados do prédio de Eike acampam no Centro

Apesar da oferta feita pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social de levá-los para abrigos, a maioria descartou a ideia, alegando que as unidades são infestadas por insetos e ficam próximas a áreas de conflitos

15 abr 2015
10h41
atualizado às 10h44
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Os sem-teto retirados do prédio que ocupavam, no Flamengo, na manhã de terça-feira (14), decidiram acampar na Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro. Antes, eles passaram a tarde no gramado de uma praça em frente ao imóvel, arrendado pelo Clube de Regatas Flamengo ao empresário Eike Batista. Sem ter para onde ir, famílias inteiras, com muitas crianças, esticaram toalhas e se deitaram ao relento. Apesar da oferta feita pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social de levá-los para abrigos, a maioria descartou a ideia, alegando que as unidades são infestadas por insetos e ficam próximas a áreas de conflitos.

"O abrigo está fora de cogitação, pois fica perto de uma favela, tem tiroteio a noite toda. Lá é cheio de 'cracudos' [outra gíria para usuário de crack] e a gente não pode ir com os nossos filhos pequenos", disse a manicure Stephanny Bernardes. Segundo ela, com a desocupação, a situação das famílias ficou ainda mais crítica: "Não temos banheiro, água nem comida. Lá dentro a gente já tinha armado uma cozinha, tinha pessoas para cozinhar, as crianças almoçavam e jantavam".

Reintegração de posse do prédio Hilton Santos, que pertence a uma empresa do grupo do empresário Eike Batista, no Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro
Reintegração de posse do prédio Hilton Santos, que pertence a uma empresa do grupo do empresário Eike Batista, no Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro
Foto: Jose Lucena / Futura Press

O líder comunitário Adão Júnior se mostrou desesperançado sobre o destino do grupo. "No momento, esperar o quê? Não sabemos nem o que fazer. As autoridades não falaram nada com a gente. Só a polícia e os oficiais de Justiça vieram. Por que não nos dão uma casa? Tiraram a gente de dentro do prédio, que agora vai ficar vazio e abandonado", protestou Júnior.

A maior parte dos sem-teto relata que foi para as ruas porque não conseguia mais pagar os aluguéis nas favelas, que subiram muito mais do que os salários. Mas alguns têm motivos pessoais, como o jovem Wellerson da Silva Fernandes. Ele disse que está na rua porque fui expulso de casa, por preconceito. "Meus pais descobriram que eu era gay e me expulsaram de casa. Virei morador de rua por homofobia".

A maior dificuldade da manicure Isabela Oliveira de Lima era arranjar fraldas para a filha Sophya, de quatro meses de idade, nascida quando ela morava em outra ocupação, de um antigo prédio da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae). "Ela não sabe nem onde é a sua casa. A gente fica aqui, mas a fralda dela já acabou. O governo não fez nada pelo povo, se não a gente não estava na rua, passando fome", reclamou Isabela.

<p>Ação teve princípio de confronto entre policiais e moradores</p>
Ação teve princípio de confronto entre policiais e moradores
Foto: Jose Lucena / Futura Press

Uma outra mulher deu à luz a um bebê prematuro, na noite de segunda, com seis meses de gestação. A criança caiu dentro do vaso sanitário e foi retirada pela doméstica Isabel de Jesus, que lembra com lágrimas o momento em que salvou o bebê. "Ela não estava se sentindo bem. Estava apreensiva com a situação. Aí eu perguntei sobre o bebê e ela disse que havia caído dentro do vaso. Peguei ele e coloquei em cima da pia. Uma irmã dela enrolou o bebezinho e levaram para uma viatura", disse Isabel, e adiantou que o bebê foi encaminhado para o Hospital Municipal Miguel Couto.

A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social informou, através de sua assessoria, que foram oferecidos vários abrigos aos sem-teto, incluindo dois que recebem famílias com crianças. Disse ainda que as condições sanitárias dos abrigos são boas e que continuará tentando convencer as pessoas a se alojarem em um dos abrigos municipais.

Agência Brasil Agência Brasil
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