- Marcus Vinícius Pinto
- Direto do Rio de Janeiro
O delegado Fabio Scliar disse nesta sexta-feira que a queda do edifício Liberdade, ocorrida em janeiro no centro do Rio de Janeiro, foi um "crime arrogante". "É o que chamamos de crime arrogante, porque a pessoa sempre acha que nada vai acontecer e acaba acontecendo uma tragédia", disse ele. A Polícia Federal (PF) indiciou hoje Sérgio Alves, dono da empresa T.O (responsável pela obra do nono andar); Cristiane Amaral, funcionária da empresa; quatro operários da obra, além do síndico do prédio, Paulo Renha, por desabamento culposo qualificado e dano ao bem tombado pela União, pelos prejuízos causados ao Theatro Municipal.
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Segundo ele, não foi pedida a prisão de ninguém porque o crime foi culposo (quando não há intenção de matar). O síndico vai ser indiciado também por falsidade ideológica, pois apresentou uma planta errada do nono andar. "Não tenho dúvidas de que as obras foram responsáveis pela queda do prédio", ressaltou o delegado. De acordo com o inquérito, a derrubada de cinco paredes de concreto armado (estruturais), uma coluna e dois pilares do nono andar foram responsáveis por abalar a estrutura do edifício e provocar a queda dele e de outros dois ao lado.
Paredes, janelas, portas, sistemas eletrônicos de ar-condicionado e cortinas do Theatro Municipal também foram afetadas. "Foi uma obra muito agressiva", disse Scliar, que fez questão de negar que obras da década de 1930 e da construção do Metrô, na década de 1970, tenham abalado estruturas do prédio. "Mesmo se ele tivesse sido feito ontem, cairia, porque a conduta para a obra não foi a correta", completou o delegado.
Falta de qualificação
Sobre os erros na condutada empresa T.O., Fábio Scliar disse que ela nunca contratou um engenheiro ou arquiteto para acompanhar o andamento da obra e sequer chamou pedreiros. Dos quatro funcionários, dois eram empreiteiros de pequenas reformas como colocação de divisórias, um era servente e outro ajudante de pedreiro.
O delegado explicou que, do primeiro ao oitavo andar, as salas eram abertas, com um grande salão, mas a partir do nono, a estrutura mudava para salas de escritórios. As testemunhas indicaram nos depoimentos que, antes da queda, já não havia mais paredes no local. "O síndico do prédio disse que, quando ganhou o andar do pai - o construtor do edifício, na década de 1950 -, o duto do nono andar já não existia. Porém, em 2001, ele apresentou uma planta à prefeitura com o duto. Por isso, ele será indiciado também por falsidade ideológica", explicou Scliar.
Durante o inquérito, que ouviu mais de 100 pessoas e tem mais de 560 páginas, houve uma acareação entre os quatro operários que trabalhavam na obra e a responsável da empresa. O delegado descobriu que por duas ou três vezes eles temeram por algo pior, mas que teriam recebido ordens de Cristiane Amaral para seguir com a obra. "Ela disse que não tinha dado ordens para derrubar paredes e que não tinha visto nada. Mas no dia em que o prédio caiu, ela estava no local às 19h e viu que a sala estava sem paredes", confirmou Fabio Scliar.
O inquérito será enviado para o Ministério Público Federal (MPF), que vai dar prosseguimento ao caso. O delegado pede ainda a quebra do sigilo telefônico das cinco pessoas que ainda constam como desaparecidas para tentar esclarecer se elas estavam no local do desabamento. Ao todo, 22 pessoas morreram na queda dos três edifício na rua 13 de Maio no centro do Rio, em 25 de janeiro deste ano.

