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Rio amanhece vermelho em apoio aos bombeiros

12 jun 2011
12h34
atualizado em 13/6/2011 às 07h40
Gabriel Macieira
Direto do Rio de Janeiro

A população fluminense não teve problemas para acordar cedo neste domingo e ir à praia de Copacabana prestar seu apoio à causa dos bombeiros do Estado, que lutam por reajuste salarial e pela anistia geral (criminal e institucional) aos profissionais presos durante um protesto. Segundo a tenente-coronel do 19º BPM Cláudia Louvain, o público estimado foi de 27 mil pessoas. Três carros saíram por volta de 10h30 e chegaram ao ponto de encontro, no final de Copacabana, às 14h. Muitas faixas vermelhas foram colocadas por moradores e um abaixo-assinado foi entregue pela anistia dos presos. Muitas levaram balões, que foram lançados ao ar, representando a liberdade dos bombeiros.

Passeata da categoria reuniu milhares de pessoas em Copacabana
Passeata da categoria reuniu milhares de pessoas em Copacabana
Foto: Luiz Gomes / Futura Press

Confira o salário dos bombeiros em cada Estado do País

"O que a gente procura agora é dignidade para o nosso trabalho e a liberação de todos os presos. Depois iremos atrás do aumento de salário", disse o bombeiro Geneci Barreiro Neto, 36 anos, se referindo aos cerca de 25 profissionais que ainda não foram libertados. Ele participou do ato ao lado da mulher e se disse satisfeito com o apoio demonstrado pela população. "Tenho que agradecer o governador Sérgio Cabral, por que se ele fez uma coisa boa foi botar todo o povo ao nosso lado", gracejou.

A aposentada Maria Helena Freitas era uma das pessoas que decidiu apoiar os bombeiros. Ela acordou às 5h e foi sozinha, de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio, para a passeata. Segundo ela, a manifestação demonstra o poder que o povo pode exercer para conseguir justiça. "Não poderia perder essa passeata, pois há muito tempo não acontece algo parecido. O Brasil precisa lutar mais vezes", disse.

De acordo com o capitão Marchesini, um dos bombeiros presos, que chegou às 7h10 na passeata, o tratamento foi ríspido na prisão. Ele disse ter sido chamado de "marginal" por um comandante da PM. "Quando estávamos na sala, um coronel nos dirigiu falando que ali não éramos oficiais e sim marginais".

Além dos bombeiros, a passeata também teve manifestação de professores policiais militares e civis. Para a coordenadora geral do Sindicato Estadual dos Professores de Educação, Vera Nepomunuceno, os bombeiros deram uma grande lição a todos os profissionais. "Pela primeira vez, em vez de apagar, os bombeiros botaram fogo", afirmou.

Segundo o sargento Guarda-vidas Patrick dos Reis, 32 anos, que também foi detido no sábado (6), os presos ficaram com uma sensação de indignação. Para ele, a situação evidenciou desconforto até dentro da própria polícia. "Não chegaram a mostrar. Mas aconteceu um confronto entre o Batalhão de Choque e a PM. Ficamos sentados das 6h às 3h da manhã. No local tinham mulheres e crianças, não podem nos tratar assim", afirmou.

Os bombeiros festejaram o sucesso da passeata para. Para o capitão Lauro Botto, que discursou durante todo o caminho, essa foi a maior manifestação no Rio no século 21."Essa foi uma manifestação histórica mostrando que a população do Rio tem o poder de mudar as coisas", afirmou Leonardo Lier, médico dos bombeiros.

De Saquarema e Araruama, cidades do litoral norte fluminense, três ônibus trouxeram 250 pessoas para a passeata. Entre eles, o sargento Marcelo Ramos de Lima, que acredita que a classe, principalmente para soldados mais novos, tem que ser valorizada. Ele trabalha há 22 anos e, segundo ele, ganha R$ 1,5 mil mensais. A passeata terminou por volta de 15h30. Os manifestantes cantaram o hino nacional e deram uma salva de palmas aos 439 presos e mandaram um recado dos bombeiros. "Mesmo se não ganharmos dinheiro e não recebermos salário, trabalharemos com honra como sempre fizemos".

Estiveram presentes no evento parlamentares estaduais, como Marcelo Freixo (Psol) e Flávio Bolsonaro (PP), e federais: Alessandro Molon (PT-RJ) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Artistas também apoiaram a causa da categoria. A cantora Alcione compareceu de camisa vermelha e capacete da corporação.

Anistia deve ser votada
O deputado federal Alessandro Molon disse que há chances de que a anistia para os 439 bombeiros seja votada ainda esta semana. Molon é um dos deputados que conseguiu, na madrugada de sexta-feira, um habeas corpus para soltar os militares presos.

Bombeiros na cadeia
Cerca de 2 mil bombeiros que protestavam por melhores salários invadiram o quartel do Comando Geral dos Bombeiros, na praça da República, em 3 de junho. O Batalhão de Choque da Polícia Militar invadiu o local e prendeu 439 bombeiros. Eles respondem pelos crimes de motim, dano ao aparelhamento militar (carros e mobiliário), dano a estabelecimento (quartel) e inutilização do meio destinado a salvamentos (impedir que carros saíssem para socorro).

Os bombeiros prosseguem com os protestos, e acamparam em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) até que os detidos começaram a ser libertados, em 10 de junho. Eles não aceitam a proposta de reajuste de 5,58% oferecida pelo Estado e pedem ainda a anistia geral (criminal e administrativa) dos bombeiros presos.

A situação vinha se tornando tensa desde maio, quando uma greve de guarda-vidas, que durou 17 dias, levou cinco militares à prisão. A paralisação acabou sendo encerrada por determinação da Justiça. Os bombeiros alegavam não ter recebido contraproposta do Estado sobre a reivindicação de aumento do piso mínimo para R$ 2 mil. Os profissionais fluminenses recebem cerca de R$ 950 por mês.

Especial para Terra

Com informações de O Dia

Colaborou com esta notícia o internauta José Carlos Pereira de Carvalho, do Rio de Janeiro (RJ), que participou do vc repórter, canal de jornalismo participativo do Terra. Se você também quiser mandar fotos, textos ou vídeos, clique aqui.

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