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"Roger quer saber do que os pais gostavam"

Mariana Lanza

Direto de São Paulo


Cibele Schubert Ledermann, 33 anos, é tia e madrinha de Roger, 7 anos. O garoto, que mora em Ijuí (RS), perdeu os pais, Sandro e Lisiane Schubert, no acidente com o Airbus A-320 da TAM, em 17 de julho de 2007. Desde então, mora com os avós maternos e fica na casa de parentes paternos a cada quinze dias.

Cartaz feito em homenagem ao casal Lisiane e Sandro Schubert
Cartaz feito em homenagem ao casal Lisiane e Sandro Schubert
Foto: Raphael Falavigna / Terra

"Era a primeira viagem de avião do Sandro e da Lisiane e eles tinham prometido ao filho, Roger, que o levariam no ano seguinte a São Paulo. Antes de seguir para o aeroporto, meu irmão disse que ligaria assim que chegasse em Congonhas. Logo que confirmaram que eles estavam no vôo JJ 3054 da TAM, fui para a capital paulista. 'Dinda, meu pai e minha mãe também viajaram para São Paulo, mas meu pai ainda não me ligou', lamentou Roger, na época com 5 anos. Fiquei lá por cerca de nove dias, tempo que levou para que os corpos deles fossem identificados. Minha mãe falou ao Roger que o Sandro e a Lisi tinham sofrido um acidente e estavam sob os meus cuidados. Depois de conversar com psicólogas, achei que era a pessoa certa para contar sobre a morte dos pais ao meu sobrinho. Sentia que ele tinha bastante confiança em mim. Telefonei ao Roger e aproveitei que minhas tias estavam por perto para falar. 'A dinda não vai conseguir levar seu pai e sua mãe de volta. Eles vão em caixões. Aconteceu com um monte de gente que estava no avião. Pode chorar, porque está todo mundo triste', disse para ele, que comentou sobre o assunto com minhas tias em seguida: 'A dinda disse que não vai trazer o pai e a mãe, mas eu quero eles'. Nunca achei que seria forte para escolher dois caixões, assinar atestados de óbito, parecia uma mentira. No enterro, chamamos o Roger para se despedir dos pais. Ele queria saber da chave para abrir os caixões. Depois que explicamos que isso não seria possível, deu beijos e passou a mão onde o Sandro e a Lisi estavam. Hoje, o Roger não fala mais sobre os pais voltarem, mas quer saber do que gostavam, com quem se parece. Após o chá de Dia das Mães na escola neste ano, pediu para tomar banho comigo. Estava fazendo massagem em seu cabelinho quando começou a espremer os olhos para chorar. Eu disse: 'quer abraçar a dinda? Pode abraçar. Quando teu pai foi viajar, falou: cuide bem do meu gurizinho. Quando tu quiseres e se quiseres chamar a dinda de mãe, pode chamar'. Ele, então, pediu colo, me abraçou forte e beijou meu rosto."

Fonte: Terra
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