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'Nunca fui fã de política', diz músico que convocou greve geral na segunda

Acusado pela CUT de ajudar a ação de "grupos oportunistas", músico nega relação com partidos e critica impunidade a corruptos

28 jun 2013
18h22
atualizado às 18h22
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<p>Criador do evento que convocava greve geral para o dia 1&ordm; de julho quer&nbsp;fim de protestos violentos</p>
Criador do evento que convocava greve geral para o dia 1º de julho quer fim de protestos violentos
Foto: AP

Criador do evento no Facebook que angariou o apoio de mais de um milhão de internautas para a convocação de uma greve geral no dia 1º de julho, o músico Felipe Chamone se vê no centro de uma onda de especulações quanto à real motivação para os protestos. Desautorizado pela Força Sindical e pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) - que vê no anúncio da greve geral a ação de "grupos oportunistas" que pretendem gerar insegurança na população -, Chamone nega relação com qualquer partido. "Nunca fui fã de política", afirmou o músico em entrevista exclusiva para o Terra.

Crítico da classe política e avesso a perguntas sobre sua orientação partidária, Chamone afirma que tinha como objetivo colaborar com uma alternativa às manifestações violentas no País. "Foi a forma que eu vi de poder ajudar nessa transformação do Brasil, sem que o pessoal precisasse ir pra rua quebrar pau, com esses manifestos violentos que estão ocorrendo aí. Foi uma forma mais pacífica de fazer essas reivindicações", justificou.

"Eu acho que se a gente ficar simplesmente indo para a rua, vai continuar confusão demais. Acho que a gente tinha que parar geral o Brasil. Se os políticos não trabalham para nós, nós também não vamos trabalhar para eles", sugere Chamone, que diz não ter "a mínima ideia" de como será a adesão à greve proposta por ele. "Da mesma forma que eu fui surpreendido com o sucesso do evento, eu não sei como vai ser no dia 1º. Vai ser uma surpresa para mim também."

Sobre os motivos que causam a sua indignação, o músico foi, inicialmente, evasivo. "São tantas coisas que não dá para listar agora. Várias", afirmou. Após insistência, decidiu exemplificar: "roubalheira que tem no governo, imposto muito alto, nada funciona direito. A gente paga IPVA e depois tem que pagar pedágio também. Eu acho que muitas coisas estão erradas". Questionado sobre o governo, porém, decidiu não direcionar suas críticas à presidente Dilma Rousseff. "Eu acho que a responsabilidade não é de uma pessoa, a responsabilidade é de um todo. Então eu não vou falar dela", disse o manifestante.

Apesar de toda a mobilização em torno de seu evento, Chamone ainda não sabe se participará de algum protesto nas ruas de Belo Horizonte (MG), onde mora. "Eu simplesmente vou parar na segunda-feira", disse o jovem, que trabalha, segundo informa em seu perfil no Facebook, como "ator, cantor, músico, compositor, produtor musical e de eventos, técnico em áudio e vídeo, cineasta, fotógrafo, apresentador de TV, assessor de mídia e membro do conselho da Confederação Brasileira de Tiro Defensivo (CBTD), empresário , e tudo aquilo que me der vontade de fazer".

Chamone afirma que não é mais responsável pela organização dos protestos marcados para segunda-feira. "Eu perdi o contato com todo mundo. Assim que eu coloquei (no Facebook) o local das manifestações, o evento saiu do ar. Tinha colocado que em cada cidade as pessoas fossem para a porta da Câmara Municipal e, em Brasília, no Congresso. (...) Na verdade, eu sugeri a ideia, e o próprio pessoal que apoiava começou a criar outros eventos. Agora já não está mais na minha mão, está na mão do povo", declarou.

'Greve geral é fria', dizem centrais sindicais
A repercussão do evento nas redes sociais gerou uma onda de boatos e obrigou as principais centrais sindicais do País a se manifestarem oficialmente sobre a possibilidade de uma grande greve nacional. A Força Sindical e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) foram enfáticas ao garantir que não há qualquer paralisação programada para a próxima segunda-feira. "(O ato de) 1º de julho não é do movimento sindical, de nenhuma central, não é de nenhum sindicato, não é de nenhuma federação. É fria", alertou o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna.

Segundo o dirigente, os eventos agendados pelas redes sociais estão criando informações desencontradas que não correspondem com a realidade. "O Facebook é apenas uma rede social, qualquer um escreve o que quiser. O trabalhador deve seguir a orientação do seu sindicato", afirmou. "Quem convoca greve geral é sindicato e não eventos do Facebook", afirma a CUT em nota.

"Nem a CUT nem as demais centrais sindicais, legítimas representantes da classe trabalhadora, convocaram greve geral para o dia 1º de julho", diz o texto da central sindical, que acusa "grupos oportunistas" pela criação do evento no Facebook. "A convocação para a suposta greve geral do dia 1º, que surgiu em uma página anônima do Facebook, é mais uma iniciativa de grupos oportunistas, sem compromisso com os/as trabalhadores/as, que querem confundir e gerar insegurança na população. Mais que isso: colocar em risco conquistas que lutamos muito para conseguir, como o direito de livre manifestação", afirma a CUT. "É preciso tomar muito cuidado com falsas notícias que circulam por meio das redes sociais", completa a nota.

Questionado sobre as acusações de "oportunismo" por parte da CUT, Chamone afirmou que "não obrigou ninguém a participar do evento". "É a opinião deles da CUT. Quando eu criei a greve, eu não estava seguindo uma lei. A gente simplesmente estava querendo parar mesmo. Foi onde um milhão de pessoas disseram que concordavam que tinha que parar mesmo, independente de sindicato, independente de qualquer coisa", alegou o músico.

Tanto a CUT quanto a Força Sindical farão uma grande mobilização no dia 11 de julho. "O movimento sindical não está nessa brincadeira do dia 1º de julho. Todo o movimento sindical, todas as centrais sindicais do nosso País estão convocando para o dia 11 de julho", disse Juruna. Segundo a CUT, a mobilização do dia 11 de julho não tem caráter de greve geral e prevê manifestações em todo o País por melhorias para a classe trabalhadora.

Apoio a partido e teorias conspiratórias
Entre as muitas "teorias de conspiração" que circulam no Facebook sobre a origem do movimento pela greve geral na próxima segunda-feira está a informação de que Felipe Chamone seria um dos articuladores do Partido da Segurança Pública e Cidadania (PSPC), que pretende ser homologado a tempo de disputar as eleições de 2014. O boato ganhou força pelo fato de que a página do partido aparecia nas opções de "curtir" do perfil de Chamone na rede social.

O músico admite "simpatia" à criação do partido, ligado a entidades policiais, mas nega qualquer envolvimento com a direção da legenda. "Eu apoiei ele, mas não tem como fazer parte de um partido que existe, mas não existe. É um partido em formação. Não trabalho para partido nenhum", alegou.

O presidente fundador do PSPC, Edivaldo dos Santos de Farias, também nega envolvimento com qualquer mobilização pela greve geral. "Ele é colaborador, ajuda o partido, mas não tem nenhuma autoridade de postar nada com relação ao partido. O partido não está apoiando a greve geral, não tem apoio do partido greve nenhuma", afirmou Farias. "Até porque nós estamos em fase de finalização de homologação, não é o momento de nós fazermos uma manifestação dessa forma, não devemos ser oportunistas."

Segundo Farias, o partido já coletou 360 mil das cerca de 483 mil assinaturas necessárias para a homologação junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A expectativa da legenda é finalizar o processo até julho, a tempo de participar das eleições de 2014. "Queremos inclusive lançar candidato à Presidência da República", projeta o presidente do PSPC, que promete fazer oposição "a todos os partidos que estiverem envolvidos com corrupção". "Seremos um partido de centro", afirma Farias.

Dizendo-se totalmente a favor da "democracia plena" e das manifestações populares, Farias acusa o PT de insuflar a multidão para criar tumultos. "Acho que está tendo só uma questão de desvio de comportamento de pessoas que não são ligadas ao movimento, que são baderneiros que estão cometendo furtos. Ouvi dizer que até o próprio PT está infiltrando pessoas do próprio partido com o objetivo de criar tumultos, quebrando lojas. E têm ligação com o PT esse pessoal", disse o presidente do PSPC, que preferiu manter sua fonte em sigilo.

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Protestos contra tarifas mobilizam população e desafiam governos de todo o País
Mobilizados contra o aumento das tarifas de transporte público nas grandes cidades brasileiras, grupos de ativistas organizaram protestos para pedir a redução dos preços e maior qualidade dos serviços públicos prestados à população. Estes atos ganharam corpo e expressão nacional, dilatando-se gradualmente em uma onda de protestos e levando dezenas de milhares de pessoas às ruas com uma agenda de reivindicações ampla e com um significado ainda não plenamente compreendido.

A mobilização começou em Porto Alegre, quando, entre março e abril, milhares de manifestantes agruparam-se em frente à Prefeitura para protestar contra o recente aumento do preço das passagens de ônibus; a mobilização surtiu efeito, e o aumento foi temporariamente revogado. Poucos meses depois, o mesmo movimento se gestou em São Paulo, onde sucessivas mobilizações atraíram milhares às ruas; o maior episódio ocorreu no dia 13 de junho, quando um imenso ato público acabou em violentos confrontos com a polícia.

O grandeza do protesto e a violência dos confrontos expandiu a pauta para todo o País. Foi assim que, no dia 17 de junho, o Brasil viveu o que foi visto como uma das maiores jornadas populares dos últimos 20 anos. Motivados contra os aumentos do preço dos transportes, mas também já inflamados por diversas outras bandeiras, tais como a realização da Copa do Mundo de 2014, a nação viveu uma noite de mobilização e confrontos em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador, Fortaleza, Porto Alegre e Brasília.

A onda de protestos mobiliza o debate do País e levanta um amálgama de questionamentos sobre objetivos, rumos, pautas e significados de um movimento popular singular na história brasileira desde a restauração do regime democrático em 1985. A revogação dos aumentos das passagens já é um dos resultados obtidos em São Paulo e outras cidades, mas o movimento não deve parar por aí. “Essas vozes precisam ser ouvidas”, disse a presidente Dilma Rousseff, ela própria e seu governo alvos de críticas.

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Fonte: Terra
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