Cidades

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17 de janeiro de 2013 • 17h09 • atualizado às 17h25

Índios que ocupam antigo museu no Maracanã relatam 'terror psicológico'

Prédio e terreno onde índios vivem no entorno do Maracanã estão envolvidos em disputa judicial
Foto: Daniel Ramalho / Terra
  • Direto do Rio de Janeiro
 

Os índios que ocupam o antigo museu ao lado do estádio do Maracanã viveram mais um dia de tensão nesta quinta-feira com a iminência de uma invasão por parte das forças de segurança. O prédio e terreno estão envoltos em disputa judicial para desocupação, tendo em vista as obras estruturais no entorno, que o Estado alega serem exigências da Fifa para a Copa do Mundo de 2014.

“O pessoal vê notícias na internet e já começa a ficar preocupado por aqui, já começa a movimentação, está todo mundo com medo”, relata o cacique Carlos Tucano, principal representante da Aldeia Maracanã, local onde, entre as décadas de 50 e 70, funcionou o Museu do Índio. Hoje o prédio de cerca de 150 anos é ocupado por 17 etnias.

Na tarde de hoje, voltou a circular a informação, não confirmada pela Defensoria Pública do Estado, tampouco pelas autoridades de segurança, de que a Tropa de Choque da Polícia Militar estaria se dirigindo ao local para a retirada dos índios. No último final de semana, os policiais fizeram um cordão de isolamento na preparação para a invasão, que não ocorreu uma vez que o Estado não detinha o termo de posse do local.

A concentração de jornalistas no local também aumentou o clima de tensão entre os índios, muito embora nenhum carro da PM tenha aparecido. “Toda hora alguém diz que o Choque está vindo. Poucas horas atrás, caiu um coco desses (apontando para o alto), e o impacto com o banco de madeira fez um barulho que o pessoal já pensou que fosse bomba. Estão fazendo um terror psicológico com a gente”, argumenta Afonso Apurinã, representante do Centro de Referência da População Indígena.

“Vamos ver o que vai ser. Estamos aqui esperando. Já tem gente até criando perfil falso no Facebook para atacar a gente, falando coisas negativas. Já saiu até no jornal de que tem gente fumando maconha aqui, que teria até traficantes. Isso é um absurdo”, completou Apurinã.

O fato é que a repercussão do caso não só deixou o ambiente tenso na aldeia, como dificultou e muito o trabalho dos jornalistas. A todo momento, a reportagem do Terra era abordada por representantes da aldeia, antropólogos que se dizem defensores da causa indígena e até defensores do movimento punk, todos receosos quanto a atuação da imprensa. Eles impedem que fotógrafos, por exemplo, façam imagem do interior do antigo museu, ou mesmo dos próprios manifestantes.

Proposta recebida
Na tarde da última quarta-feira, os representantes da Aldeia Maracanã receberam por parte da secretaria estadual de Assistência Social e Direitos Humanos um documento assinado pelo secretário Zaqueu Teixeira e pelo governador Sérgio Cabral, comprometendo-se com a realocação dos indígenas para outro local. Cabral sugeriu um terreno na Quinta da Boa Vista, próximo ao Maracanã, além da criação de um centro de referência da cultura indígena.

“Estamos com o pé atrás, porque eles não mencionam o local exato, não dá para acreditar que isso vai acontecer mesmo. Quando nos entregarem um documento dizendo que vão nos transferir para tal local, tudo documentado, aí a gente submete a votação”, explicou Carlos Tucano. As 17 etnias presentes devem aprovar unanimemente a proposta estadual, sem restrições, para que ela seja aprovada e os índios se retirem em comum acordo. 

 
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