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Inauguração de templo vira culto com políticos e 'ofertas'

Templo de Salomão, da Igreja Universal, foi inaugurado em SP com políticos como Dilma, Alckmin e Haddad e sugestão para que os presentes depositassem 'oferta' e 'pedidos a Deus' em envelopes

31 jul 2014 22h37
| atualizado em 1/8/2014 às 00h57
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A entrada de jornalistas não foi permitida na inauguração do Templo de Salomão em São Paulo
A entrada de jornalistas não foi permitida na inauguração do Templo de Salomão em São Paulo
Foto: Alan Morici / Terra

Uma ‘cerimônia-culto’ com um discurso fortemente calcado no combate às drogas por meio da fé, em detrimento de tratamentos médicos, com críticas veladas aos serviços de saúde e segurança e com coleta de “pedidos” a Deus e “ofertas” à igreja marcou na noite desta quinta-feira a inauguração do Templo de Salomão, em São Paulo. A construção faraônica, erguida pela Igreja Universal do Reino de Deus no Brás, na zona leste da capital, custou R$ 680 milhões e levou quatro anos para ser concluída. O templo tem capacidade para receber 10 mil pessoas sentadas e já é o maior espaço religioso do País.

O evento de inauguração bloqueou ruas do bairro e contou com representantes de todas as esferas de governo e poder, entre os quais a presidente Dilma Rousseff (PT) e seu vice, Michel Temer (PMDB), o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) – os três, candidatos à reeleição em outubro –, além do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Superior Tribunal Militar (STM) e Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Pouco antes do início do culto, marcado para as 19h, um apagão deixou partes do edifício sem energia por cerca de dez minutos.

Dilma se sentou ao lado do bispo e fundador da Universal, Edir Macedo, que, com indumentária típica do judaísmo – o quipá na cabeça e um manto – fez uma oração aos convidados após a coleta das ofertas e dos pedidos. Os jornalistas foram proibidos de entrar no templo – segundo a assessoria de imprensa da igreja, “porque lá (dentro) é um local sagrado, não um local de trabalho”.

“Faça acontecer algo na vida dessas criaturas, porque o teu povo está cansado de sofrimentos, de derrotas, de fracassos familiares, fracassos na saúde, fracassos na segurança”, disse o bispo.

Antes, outro religioso da igreja, o bispo Rogério Formigoni, fez um discurso sobre a época em que afirma ter sido dependente de drogas – crack, cocaína, lance perfume e “chá de cogumelo” – e sugeriu: é pela fé que os dependentes se livrarão do vício, não pelo tratamento médico, já que o vício seria, segundo a igreja, “doença do espírito”.

“Se o País pegar o PIB e investir em clínicas em cada esquina, não vai conseguir recuperar um viciado”, afirmou Formigoni, que se afirmou viciado durante sete anos.

“Usava cola de sapateiro, haxixe, chá de cogumelo, loló, cheirava cocaína de metro e em uma noite fumava até 80, cheguei a fumar até 100 pedras de crack”, declarou. “A psiquiatria afirma que (vício em drogas) é uma doença incurável, progressiva e fatal. Eu posso provar que vício tem cura porque fui um adicto um viciado durante sete anos”, completou. E concluiu: “Vício é uma doença do espírito, uma entidade, um encosto, como quiser chamar.”

O bispo ainda sugeriu que homossexuais também podem se livrar dos vícios. “Pode ser lésbica, homossexual, de qualquer religião, não importa”. Em seguida, Formigoni levou ao altar um homem, fiel da igreja Universal, apresentado também como ex-dependente. “A única maneira de se curar definitivamente qualquer que seja o vício, seja vício em pornografia, em jogos, é por meio da fé”, encerrou o bispo.

Edir Macedo encerrou a cerimônia-culto afirmando que precisaria levar a presidente Dilma “para uma conferência”. Funcionários da igreja chegaram a montar uma estrutura para a entrevista coletiva, mas Dilma deixou o templo sem falar com os jornalistas.

Obra irregular

O Ministério Público de São Paulo instaurou inquérito para apurar possíveis irregularidades no Templo de Salomão, como o fato de a obra ter sido feita apenas com alvarás de reforma, o que livrou a Universal de pagar 5% do valor da obra em melhorias no entorno. Segundo o MP, isso “pode ser indicativo de fraude, descontrole da administração ou defeito grave de legislação”.

A investigação foi aberta inicialmente em 2010, após pedido do vereador Adilson Amadeu, mas foi arquivada em 2011 depois que a prefeitura apresentou documentos que indicavam que a obra era regular. Em junho deste ano, a investigação foi reaberta após denúncia de um profissional que preferiu não se identificar. A Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo da Capital pede agora documentos que possibilitem indicar se a obra é regular.

Em nota divulgada à imprensa na quarta-feira, a Universal afirma que “não foi ouvida ou sequer informada das irregularidades supostamente praticadas” e que “é no mínimo prematuro afirmar que tenha havido fraude em qualquer etapa da construção”.

Foto: Terra

Fonte: Terra
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