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Homem diz ter memória apagada a cada 4 dias em São Paulo

Otávio passou a anotar os fatos mais importantes em uma agenda para "relembrar" mais tarde. O hábito faz ainda com que ele não desaprenda a escrever

15 jul 2014
11h08
atualizado às 13h10
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Os últimos três anos da vida de Otávio Aparecido Costa Sanches, 54 anos, estão resumidos nas poucas linhas escritas por ele em quatro agendas. Morador em Lins, no interior de São Paulo, o homem convive com um problema na memória e se lembra apenas dos quatro últimos dias que viveu. O restante ele nem sabe que existiu.

Otávio enfrenta o problema com a memória há pelo menos três anos
Otávio enfrenta o problema com a memória há pelo menos três anos
Foto: Talita Zaparolli / Especial para Terra

Todas as recordações sobre a juventude, os amigos e familiares, por exemplo, foram apagadas. Por isso, ele passou a anotar os fatos mais importantes em agendas. São páginas e páginas de anotações que servem de memória e também para que ele não desaprenda a escrever.

“É como quando você lê um livro de história. Você sabe que aquilo aconteceu, mas você não vivenciou. É assim que eu me sinto ao ler o que eu mesmo escrevi. Sei que aquilo aconteceu porque está escrito, mas eu não lembro”, explica.

Seis horas por dia, em média, ele dedica a rever todas as anotações feitas, além de estudar português, matemática, geografia e as placas de trânsito no computador. Noções básicas para conviver em sociedade. O que levamos anos para aprender, Otávio memoriza em algumas horas. Todos os dias, acompanhado da esposa, Sueli da Silva Costa Sanches, 54, ou do filho, Fábio da Silva Costa Sanches, 31, ele dirige pelas ruas do bairro para não esquecer como é, e para não se perder.

Sueli conta que o problema surgiu em meados de 2004. “Ele me contava que passava por uma rua, mas não lembrava do quarteirão anterior. Que alguns pedaços do caminho ele não sabia como tinha percorrido. E também não comia, só tomava água, leite, tinha insônia, sempre ficava nervoso e teve depressão. Depois veio o esquecimento”, lembra.

Ela diz que o fato determinante para que a família procurasse um médico foi quanto Otávio não se recordou de um amigo de infância. “Perguntei sobre um amigo dele, que eles cresceram juntos, mas ele não estava lembrando. Eu não conseguia acreditar que ele não se lembrava. Pegamos o carro, passamos em frente à casa do rapaz e ele não reconheceu. Entrei em desespero”, lembra.

Naquele ano, os exames feitos no Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (SP) apontaram uma lesão no lóbulo temporal direito do cérebro causada pela exposição excessiva e intoxicação por organofosforado, substância encontrada em inseticidas. Com isso o homem foi afastado do trabalho para tratamento médico. Otávio desempenhava a função de agente de controle de pragas no Centro de Controle de Vetores da Prefeitura de Lins e, durante 10 anos, manipulou e aplicou inseticidas diariamente. “Não tinha equipamentos de proteção adequados. Isso me contaminou”, relata.

Outro neurologista apontou também o mal de Alzheimer, doença neuro-degenerativa, como possível causa dos esquecimentos. Com esse diagnóstico, Otávio foi aposentado por invalidez em maio de 2013.

“Eu não acreditava no diagnóstico. Fica até de madrugada pesquisando na internet sobre a doença. Chorando e pesquisando. O Alzheimer não tem os mesmos sintomas porque com ele a pessoa esquece o presente e vai viver lá no passado. A memória recente não tem, mas a passada tem. E não tem esse poder de organizar as coisas que os médicos chamam de parte cognitiva. Isso, graças a Deus, ele tem”, explica Sueli.

Sem estar convencida do diagnóstico a família continuou a busca incessante por uma resposta. De 2004 até hoje o homem já passou por 18 médicos e recebeu 14 diagnósticos diferentes, mas nenhum conclusivo e que aponte a verdadeira causa da perda de memória. “Os médicos falam que é complicado e que não é todo dia que aparece um problema assim”, conta a mulher.

A família corre contra o tempo em busca de uma solução já que, em 2011, os esquecimentos aconteciam em períodos de 7 dias. Após três anos, Otávio consegue se lembrar apenas do que aconteceu nos últimos quatro dias. Para ele o mais difícil é não se lembrar do filho mais novo, Felipe, que mora em Araçatuba (SP).

“Eu sei que ele é meu filho porque eu vejo na fotografia e os outros me falam. Mas eu não sei como ele é, o jeito dele. Quando ele telefona aqui em casa espero ele falar primeiro pra saber o que dizer”, lamentou Otávio, emocionado. Em uma das páginas das agendas está registrada a última visita do filho. “Felipe passou o dia aqui em casa. Milena é bem pequenininha”, diz a anotação, referindo-se à nora. Até as coisas mais simples do dia a dia, foram apagas da memória, como a chuva. “Choveu aqui ontem. Eu vi, achei esquisito”, disse.

“Eu não queria estar aposentado, queria estar produzindo, ser independente. Tenho a esperança de voltar a trabalhar”, conta o funcionário público aposentado e revela que seu maior sonho é ser locutor de rádio. Apesar da perda de memória ele enfrenta a vida com bom humor. “A cada quatro dias eu ganho uma namorada nova”, brinca, referindo-se a esposa com quem é casado há 32 anos.

Ação na Justiça
Em processos administrativos ingressados na própria Prefeitura de Lins, a família de Otávio pedia que o Executivo custeasse o tratamento médico dele, já que todas as despesas foram pagas com recursos próprios. Mas os pedidos foram negados e o caso foi parar na Justiça.

A família não fala em indenização, mas pede que o valor da aposentadoria seja revisto. “Oficialmente eu tenho Alzheimer, mas o advogado pediu a diferença salarial porque está previsto no estatuto (dos funcionários públicos) que em caso de uma doença grave o funcionário tem direito a equiparação. Não com o salário que eu ganhava, mas o que a base ganhava daquela referência que eu tinha. O advogado tinha pedido isso, agora ele pediu o total para o juiz”, explica Otávio.

Em nota enviada à reportagem do Terra, a Prefeitura de Lins informou que a legislação municipal vigente não cita especificadamente o mal de Alzheimer. Assim, foi requerido que Otávio se submetesse à perícia médica para atestar que a doença foi desenvolvida devido à função exercida por ele no município. Foram marcadas duas perícias médicas, em 17 de janeiro 2014 e 31 de maio de 2014, mas ele não compareceu.

Por isso, segundo a prefeitura, não houve conclusão dos processos administrativos. Encerrada a fase de recurso administrativo, o Executivo aguarda o andamento do processo judicial e os devidos encaminhamentos.

Otávio contesta a versão da Prefeitura. O aposentado diz que apenas o Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) e a própria Justiça, no curso do processo, é que teriam competência para exigir que ele fizesse perícias.

Alterações neurológicas
Atualmente o aposentado é acompanhado pelo Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) da Unesp de Botucatu (SP). Procurada pela reportagem do Terra a instituição informou que nenhum médico poderia conceder entrevista sobre o caso e se manifestou apenas por nota.

Informou apenas que o “paciente com episódios de ausência, prejuízo de memória retrógrada (não recorda nada que ocorreu além de 07 dias atrás), apresentando rastreio toxicológico do Ceatox com possível intoxicação por organofosforados (trabalhou com controle de pragas, usando inseticida). Tem relato de lembrar-se ocasionalmente de pai e mãe", diz o documento.

Já o toxicologista e diretor do Ceatox do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Anthony Wong, uma das maiores autoridades brasileiras em toxicologia, explica que alguns fosforados podem causar diversas alterações neurológicas, afetando a memória, causando perda de audição, do olfato, do paladar e podem até alterar a coordenação da visão. Neste caso os dois globos oculares não conseguem fixar num objeto ao mesmo tempo o que gera imagens duplas ao paciente.

“Todos esses inseticidas, fosforados, organoclorados, piretróides afetam o sistema nervoso dos insetos. Paralisam os músculos de respiração, do voo, e acabam matando o inseto. Imagine um pernilongo ou uma mosca que pesam alguns gramas. Se usar uma quantidade X, provavelmente pra ele vai ser fatal. Essa mesma concentração no ser humano, obviamente não vai ser fatal porque o homem pesa 60, 70, 80 quilos. Só que a exposição crônica, repetida, pode causar alterações neurológicas”, exemplifica.

O médico explica ainda que a perda de memória pode ser ocasionada por vários fatores, entre eles alimentos, contaminação por metais pesados ou pela própria genética do paciente.

“Alzheimer é um caso clássico, demência senil é outro. O mercúrio, por exemplo, se a pessoa se expor muito a sais de mercúrio essa pessoa vai ter mais rapidamente a demência senil, com perda de memória inclusive. Então dizer que essa perda é do fosforado, é possível? Sim. É provável? Talvez. É certeza? Não”, avalia. O médico acredita se tratar de um caso complexo que necessita de mais estudo clínico.

De acordo com o docente de geriatria e gerontologia da Faculdade de Medicina de Marília (Famema), Valdeci Rigolin, casos de Alzheimer, doença que também explicaria a perda de memória do aposentado de Lins, não são comuns entre pessoas com menos de 60 anos, mas podem acontecer. O processo de diagnóstico da doença é demorado, segundo o médico.

“O diagnóstico para se ter certeza de Alzheimer só é possível depois que o paciente morre. Em Londres, por exemplo, são feitos cortes do cérebro e estudo patológico”, explica.

Até o momento, não existe cura para o Alzheimer. Os avanços da medicina têm permitido que os pacientes tenham uma sobrevida maior e uma qualidade de vida melhor, mesmo na fase grave da doença.

Uso em lavouras
De acordo com o engenheiro agrônomo Domingos José Aquilante, os organofosforados são grupos de compostos químicos altamente tóxicos para o ser humano, mas no passado amplamente utilizados no campo para controle de pragas de lavouras como soja, algodão e milho.

Ainda presente em diversos produtos e com uso permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o alto grau de toxidade fez com que alguns fabricantes deixassem de comercializar os organofosforados. “As grandes empresas têm se dedicado a estudar e desenvolver produtos menos tóxicos para o homem e para o meio ambiente”, diz o agrônomo.

Para evitar contaminação, Aquilante explica que o manejo desse tipo de produto requer cuidados especiais utilizando-se sempre de equipamentos de proteção individual, como roupas especiais, óculos e luvas, além de maquinários agrícolas fechados quando a aplicação for feita em grandes áreas.  

Fonte: Terra
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