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"Foi batalha campal", diz professora sobre repressão no PR

Leila Cecatto contou ainda que violência da PM sobre professores em greve foi "muito pior" que o da greve histórica de 1988

30 abr 2015
08h48
atualizado às 09h31
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Até essa quarta-feira, perguntar para um professor da rede estadual de ensino do Paraná o que representava para ele a data de “30 de agosto” era praticamente a certeza de resposta na ponta da língua. Naquele dia, no simbólico ano de 1988 – semanas antes da promulgação da Constituição Federal –, uma manifestação da categoria em Curitiba entrou para a história por conta da violência na repressão estatal. Em greve por melhores salários, eles foram recebidos pela Polícia Militar do governo do hoje senador Alvaro Dias (PSDB) com uma gama variada de ação: cavalos, bombas de efeito moral, cães. À época, foram contabilizados na repressão dez feridos e cinco presos.

"A mensagem é que parece que a gente não deu a educação devida para determinadas pessoas, porque, se o professor está aqui desarmado, não tem que receber bomba", definiu a professora Leila Cecatto
"A mensagem é que parece que a gente não deu a educação devida para determinadas pessoas, porque, se o professor está aqui desarmado, não tem que receber bomba", definiu a professora Leila Cecatto
Foto: Janaina Garcia / Terra

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Novamente no Centro Cívico da capital paranaense, mas, desta vez, contrários a mudanças no sistema previdenciário, ontem os professores só não viram os cavalos; de resto, em quase duas horas de batalha campal, foram alvo de bombas de efeito moral, balas de borracha e até acompanhamento de policiais em helicópteros. O saldo de cerca de 200 feridos atendidos em ambulâncias ou em três hospitais da cidade revela que o 29 de abril passou, com vantagem, o episódio da cavalaria de 1988.

A reportagem do Terra esteve no Centro Cívico em Curitiba no final da noite desta quarta-feira – horas depois das cenas que repercutiram na imprensa nacional e estrangeira. No local, entre muito lixo (copos plásticos e caixas de isopor, principalmente) e barras de ferro retorcidas, uma professora olhava para o prédio escuro da Assembleia com expressão carregada.

“Tenho 30 anos de rede estadual, ainda estou na ativa. Em todo esse tempo, presenciei muitas greves – nessa de hoje, só não foi uma chacina porque não morreu ninguém. Porque tinha muita bomba, muita arma, muito policial, muito gás... muito de tudo”.

Entre as várias paralisações que ela afirma ter visto na categoria, está a de 30 de agosto de 1988, na gestão Alvaro Dias.

“Ali, o governador e seu secretário de Segurança Pública fizeram manobra de ataque aos professores com cavalaria e bombas, mas, naquela época, aquele número de bomba era muito alto porque a gente não estava acostumado. Na de hoje (ontem), tinha muito mais bomba que naquele dia – foi uma batalha campal”, declarou a professora. “Eu diria que as duas situações, para nossa categoria, foram muito tristes, porque a gente nunca espera isso de um governante, mas a de agora foi pior pela quantidade de repressão. Parecia que a Polícia Militar do Estado inteiro estava aqui em Curitiba só para cuidar dos professores”, disse.

Leila não sofreu ferimentos, mas contou que viu “muita gente ferida, muita gente que saiu carregada, muitos atendidos em ambulâncias ou levados para hospitais devido a estilhaços de bala de borracha, com muitas lesões”.

"Segurar esses artefatos me dá repulsa, indignação, indigestão moral, ânsia de vômito ideológica", enumera Vera, professora de biologia da rede estadual
"Segurar esses artefatos me dá repulsa, indignação, indigestão moral, ânsia de vômito ideológica", enumera Vera, professora de biologia da rede estadual
Foto: Janaina Garcia / Terra

Qual mensagem ficou do episódio? "A mensagem é que parece que a gente não deu a educação devida para determinadas pessoas, porque, se o professor está aqui desarmado, não tem que receber bomba", definiu.

Também no Centro Cívico, a professora de biologia da rede estadual Vera Mortean, 53 anos, 28 deles em atividade, segurava uma espécie de bandeja improvisada com restos de artefatos usados, mais cedo, pelos policiais: balas de borracha deflagradas, latas de spray de pimenta, cartuchos de bombas de efeito moral. "Segurar isso me dá repulsa, indignação, indigestão moral, ânsia de vômito ideológica", afirmou. "A luta não vai acabar, nem a resistência; serão três anos e meio. Mas é dolorido ver o trabalhador resistindo a essa truculência do governador e de seu secretário de Segurança - a dor não é só física, mas é também moral", constatou.

Richa isenta PM e critica "infiltrados"
Após o cerco da PM aos manifestantes, o governador Beto Richa (PSDB) concedeu entrevista coletiva na qual alegou que a violência teria partido de vândalos infiltrados no movimento dos professores.

“Os policiais ficaram parados protegendo o prédio público”, disse Richa, que completou: “Na medida em que os manifestantes avançam, os policiais têm que reagir, e temos imagens que mostram pessoas infiltradas, que que não são do movimento dos professores, que radicalizaram, criaram arruaça e promoviam o confronto e a depredação do patrimônio público”, justificou.

Ao todo, sete pessoas foram presas. O projeto que altera o sistema previdenciário dos servidores paranaenses passou com 31 votos a favor e 20 contra. A matéria segue agora para sanção do governador.

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Fonte: Terra

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