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Especialista: 'acho que alguém fez intervenção que não devia'

26 jan 2012
20h40
atualizado às 21h49

Dois andares estavam com obras sem regulamentação no maior dos três edifícios que desabaram no centro do Rio de Janeiro na noite de quarta-feira, o que ressaltou a possibilidade entre especialistas de que danos causados à estrutura do edifício provocaram o acidente que deixou ao menos quatro mortos e 22 desaparecidos. Segundo o professor de Engenharia Geotécnica da Coppe-UFRJ Mauricio Ehrlich, uma intervenção equivocada pode ter sido feita.

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"Certamente não é uma condição global da área, esses prédios estavam lá pelo menos há 40, 50 anos. De maneira geral, os problemas lentos em fundação dão sinais por bastante tempo. É muito pouco provável que seja um processo lento. Eu acho que alguém fez uma intervenção que não devia ter feito", afirmou, explicando que um processo lento de queda teria deixado sinais visíveis, como grandes rachaduras. "Os prédios lá normalmente são estaqueados, você põe estacas em profundidade de 8 a 10 m. Mesmo os prédios mais antigos já eram feitos assim. O Theatro Municipal é do início do século passado e já era estaqueado", disse.

O Theatro, inaugurado em 1909, serve como indicativo de que a área é segura para construções feitas com estacas de até 10 m de profundidade, como provavelmente era o caso dos prédios que desabaram, de acordo com o professor. Os três prédios comerciais, o mais antigo deles com quase 70 anos, ficam numa região do centro da cidade onde, segundo historiadores, havia lagoas no século 16, o que despertou preocupações sobre um risco amplo para outras construções da região em consequência da instabilidade do solo.

Obras sem registro
Porém, as primeiras avaliações sobre as causas do acidente apontam que o prédio de 20 andares, que tinha obras sendo feitas sem registro do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio (Crea-RJ), no terceiro e nono pisos, ruiu de cima para baixo, provavelmente levando consigo os vizinhos de 10 e 4 andares. "O terceiro e nono andares estavam com obras sem registro no Crea, não sabemos se estavam sendo feitas por um pedreiro leigo ou se tinha algum engenheiro civil", disse o presidente da Comissão de Análise e Prevenção de Acidentes do conselho, Luiz Antonio Cosenza.

"Algumas possibilidades existem, mas o que é mais possível de ter acontecido é uma falha estrutural. Na nossa opinião não é projeto errado, mas podem ter sido modificações feitas ao longo do tempo no prédio", acrescentou o engenheiro.

Os prédios desabaram pouco antes das 20h30, horário de baixa circulação de pessoas no centro do Rio e de menor movimento nos prédios comerciais. Testemunhas disseram que o expediente estava encerrado na grande maiorias das empresas em funcionamento nos edifícios quando ocorreu o desabamento. Eles estavam localizados na avenida 13 de Maio, ao lado do Theatro Municipal, um dos prédios históricos mais famosos da cidade e que foi restaurado recentemente. Apenas uma bilheteria externa do Municipal sofreu alguns danos. Ruas e avenidas perto do local foram interditadas e não há prazo para serem reabertas. Prédios próximos também foram isolados e interditados pela Defesa Civil por precaução.

Alicerces
O arquiteto e historiador Milton Teixeira não descartou que tenha havido problemas nos alicerces. A ocupação da região da Cinelândia, segundo ele, começou no século 20, quando autoridades da cidade quiserem transformar a área que ficava de frente para a baía de Guanabara numa "espécie de vitrine do Rio de Janeiro". Os primeiros prédios, de até quatro andares, deram espaço aos edifícios maiores a partir da década de 1930.

"A parte fraca dessas construções ainda eram os alicerces. Eu fico pensando se esses alicerces não tiveram problemas. Outros prédios dos anos 1940 e 1950 que foram abaixo tiveram problemas com os alicerces muito comprometidos", disse ele.

Em 2002, o desabamento de um outro prédio no centro do Rio matou duas pessoas que estavam hospedadas num hotel que funcionava no local. Autoridades disseram na época que o incidente foi provocado por uma demolição inadequada durante uma obra feita no térreo do edifício de cinco andares, onde funcionava um restaurante. Quatro anos antes, o edifício Palace 2, na Barra da Tijuca, desabou parcialmente, causando a morte de oito pessoas. Mas naquele caso houve uma má execução da obra -um erro estrutural de cálculo nas vigas de sustentação. O edifício, que era novo, foi implodido.

Os desabamentos
Três prédios desabaram no centro do Rio de Janeiro por volta das 20h30min de 25 de janeiro. Um deles tinha 20 andares e ficava situado na avenida Treze de Maio; outro tinha 10 andares e ficava na rua Manuel de Carvalho; e o terceiro, também na Manuel de Carvalho, era uma construção anexa ao Theatro Municipal. Segundo a Defesa Civil do município, cinco pessoas morreram no acidente e outras 18 permanecem desaparecidas. Cinco pessoas ficaram feridas com escoriações leves e foram atendidas nos hospitais da região. Cerca de 80 bombeiros e agentes da Defesa Civil trabalham desde a noite do incidente na busca de vítimas em meio aos escombros. Estão sendo usados retroescavadeiras e caminhões para retirar os entulhos.

Segundo o engenheiro civil Antônio Eulálio, do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), havia obras irregulares no edifício de 20 andares. O especialista afirmou que o prédio teria caído de cima para abaixo e acabou levando os outros dois ao lado. De acordo com ele, todas as possibilidades para a tragédia apontam para problemas estruturais nesse prédio. Ele descartou totalmente que uma explosão por vazamento de gás tenha causado o desabamento.

Com o acidente, a prefeitura do Rio de Janeiro interditou várias ruas da região. No metrô, as estações Cinelândia, Carioca, Uruguaiana e Presidente Vargas foram interditadas na noite dos desabamentos, mas foram liberadas após inspeção e funcionam normalmente.

Veja a localização do desabamento:

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