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Dois anos depois, famílias sofrem com mortes em acidente da TAM

17 jul 2009
07h49
atualizado às 10h25

Mariana Lanza

Direto de São Paulo


"Foi uma tragédia devastadora que acabou com nossas vidas". É assim que Giselle Garcia define o acidente com o Airbus A-320 da TAM, que há dois anos atravessou a pista do aeroporto de Congonhas e colidiu com um prédio, matando 199 pessoas. Entre as vítimas estava José Antonio Garcia, gerente geral de tráfego de cargas da companhia aérea e marido da assistente social havia 12 anos. Giselle passou meses sem ver televisão, ouvir rádio e só voltou ao trabalho por necessidade. "O provedor não estava mais aqui e as contas não paravam de chegar", disse ela (leia a íntegra de relatos da tragédia abaixo). "Minha vida nunca mais foi tão prazerosa, perdi o entusiasmo e o comprometimento no trabalho."

Silvia Xavier perdeu a filha Paula no acidente da TAM
Silvia Xavier perdeu a filha Paula no acidente da TAM
Foto: Raphael Falavigna / Terra

O sentimento de Giselle é comum para quem passou por uma situação tão traumática. "Um acidente aéreo envolve resultados inesperados, é rápido para acontecer e demorado na recuperação", disse Maria Helena Pereira Franco, doutora em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professora responsável do 4 Estações Instituto de Psicologia. "Situações como essa são como atentados terroristas ou tsunamis: mudam para sempre a vida das pessoas."

Luiz Carlos da Pieve sentiu na pele essa mudança. No final daquela tarde de julho, ele perdeu a filha Lisiane Cirlei da Pieve Schubert e o genro Sandro Schubert. Até hoje não consegue falar sobre o assunto sem se emocionar. "As pessoas costumam dizer que vai melhorar, mas a gente não esquece nunca mais", comentou o empresário, com a voz embargada. Lisiane e Sandro deixaram um filho, Roger, hoje com 7 anos. Dois anos depois do acidente, o garoto não pede mais pela volta dos pais. "Ele quer saber do que gostavam, com quem se parece", disse Cibele Schubert Ledermann, tia e madrinha de Roger.

Para que o fantasma de uma tragédia como essa não assombre o resto da vida de uma criança, é preciso cuidado na hora de abordar o assunto. "O ideal é que a notícia seja dada por um adulto conhecido e querido pela criança", disse a psicóloga Maria Helena. "A verdade deve ser dita apenas na medida daquilo que ela entender e, acima de tudo, não deve mentir ou fingir que nada aconteceu", explica a especialista.

Depressão

Assim como as crianças, os idosos também precisam ter uma atenção especial para lidar com esses traumas. É o caso da avó materna de Paula Masseran de Arruda Xavier, que estava na aeronave que colidiu com o prédio da TAM Express, na zona sul de São Paulo. "O acidente abalou demais a saúde dos meus pais. Minha mãe tem tido problemas sérios por não ser normal a avó ver a neta morrer. Geralmente é o inverso. Ela vai precisar de assistência médica por muito tempo", declara Silvia Xavier, mãe de Paula.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão atinge 20% da população mundial e até 2020 pode se tornar a segunda maior causa de incapacidade e perda de qualidade de vida. Para não deixar se abater pela tristeza profunda, pessoas envolvidas em grandes tragédias devem procurar um especialista rapidamente. "A esperança é de que exista uma recuperação. Se não for acompanhada por um especialista, essa recuperação pode ser muito longa e levar ao adoecimento", disse José Toufic Thomé, coordenador do departamento de psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

A argentina Carolina Camozzi já fazia terapia antes de acontecer o acidente que tirou a vida de seu irmão, Alejandro, e continuou o tratamento com a mesma especialista. "Naquele momento, não tinha desejo de falar com quem não conhecia. Agora, tenho altos e baixos o tempo todo. Às vezes, não consigo fazer nada. Às vezes, faço tudo. É como ter duas vidas paralelas: uma normal e outra sem meu irmão", explica.

Carolina costuma participar das reuniões da Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo TAMJJ3054 (Afavitam), em São Paulo, e aproveita as viagens para visitar sua sobrinha. "Cada vez que a vejo, me traz muita felicidade. Isso faz bem, mas ao mesmo tempo é difícil já que minha sobrinha tem o mesmo rosto do meu irmão", diz.

Mudanças

Para lidar com a perda, algumas pessoas mudam de casa como forma de tentar fugir das lembranças. Nem sempre funciona. Silvia Xavier quis sair da residência onde morava com o marido e os três filhos. Paula, a mais velha, morreu no acidente. "Queria muito sair da casa onde morávamos, mas já vi que não resolve. Você leva junto, não muda. Acabei fazendo um quarto em homenagem a Paula". No quarto estão retratos de diversas fases da vida da jovem, homenagens feitas por amigos dela e ainda a cama onde ela dormia. É lá que seu marido, Archelau, gosta de ficar para se sentir próximo da filha, que completaria 24 anos no dia em que foi enterrada.

A recuperação de quem passa por uma tragédia como essa varia. Alguns se recuperam rapidamente. Para outros, é só o começo do sofrimento. A escritora Mariana Caltabiano perdeu seus dois irmãos, João Francisco e Pedro Augusto, no acidente. Cerca de um ano e meio depois, seu pai, Bruno Caltabiano, fundador de um dos principais grupos de revenda de automóveis do País, morreu por causa de problemas cardíacos e depressão. "Procuro me cercar de pessoas que gosto, fazer coisas que gosto e dou muita importância a cada minuto da minha vida. É o caminho que busquei", conta Mariana. "Minha mãe e eu só conseguimos tocar nossas vidas porque não temos escolha. Agora ela está melhor, mas muito abalada. Não se conforma. Da minha família, só sobramos nós duas."

Sobre a tragédia

Na noite do dia 17 de julho de 2007, a aeronave da companhia aérea TAM - que havia decolado de Porto Alegre (RS) - não conseguiu parar ao pousar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, atravessou a pista e colidiu com um prédio da própria empresa. Com a explosão, todos que estavam a bordo e algumas pessoas que trabalhavam no edíficio ou circulavam próximo ao local morreram.

As investigações sobre a causa do acidente ainda não foram concluídas, mas figuram entre as hipóteses a manete (alavancas que controlam a aceleração do avião) do avião estar erroneamente em posição de aceleração e a inadequação da pista de Congonhas para pousos em dias de chuva. No ano passado, dez pessoas foram indiciadas como responsáveis pelo acidente, entre elas ex-autoridades do setor aéreo e representantes da TAM e da Aribus. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público Estadual.

Fonte: Terra
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