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Coveiro há 20 anos: "não gostaria de fazer outra coisa"

O funcionário diz que tem orgulho dos serviços prestados e relembra histórias que marcaram seus 20 anos de profissão

3 ago 2015
07h31
atualizado às 08h02
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O vento gelado do outono paulistano judiava de quem caminhava pelas ruelas abertas do cemitério em uma tarde qualquer. Na paisagem, no entanto, uma figura destoava da maioria dos passantes agasalhados. Um homem de semblhante sério que vestia calça e camiseta e carregava uma enxada usava uma das fontes de água locais para se hidratar enquanto o suor escorria pela pele. Onde ele estava havia cerca de dez covas enfileiradas que acabara de cavar. Cada uma com mais de 2 metros de comprimento, 1,5 m de profundidade e 0,8 m de largura. Trabalho pesado. Especialmente para alguém de 60 anos de idade. Mas ele não se incomoda em executar. Muito pelo contrário.

Coveiro "Pastor" diz que já enterrou mais de 10 mil pessoas no Vila Formosa
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Foto: Terra

“Para mim é prazeroso. Muita gente pode não entender, mas eu gosto do que faço. Se você não vestir a camisa aqui, não vai longe, não. Quando falo minha profissão, muita gente assusta. Tem um mito, né. Coveiro, aquele que mexe com defunto... Mas eu gosto. É privilégio para poucos. O serviço é penoso? É. Um pouco estressante também. Mas tem que saber dosar. Estou aqui há 20 anos e não me arrependo. Não gostaria de fazer outra coisa”, disse, agora com um sorriso. “Cansa, sim. Mas tem horário de almoço e posso parar quando quiser para beber uma água. Tem um desgaste natural, mas ninguém fica doente por cavar cova”.

Claudio Magalhães Soares é conhecido pelos colegas como Pastor. Basta conversar poucos minutos com ele para entender o porquê: a voz grossa e a linguagem rebuscada fazem com que todos fiquem vidrados em seu discurso, como se fosse, de fato, um líder. Entrevistá-lo foi sugestão do administrador Antônio Targino da Silva, que nos contou que o coveiro – ou melhor, agente de apoio do serviço funerário – é considerado uma enciclopédia da área. “Pergunta para ele onde fica a quadra 37”, provocou o chefe. Perguntamos. “Hum. Quadra 37? Não conheço. Mas galeria 37 é logo ali”, respondeu, apontando com precisão o local. Ele não é de cair em pegadinhas.

Em 20 anos de profissão, calcula ter enterrado aproximadamente 10 mil defuntos. Isso equivale a 500 a cada ano. Mais de 40 por mês. É tanta história que daria um livro. “Até penso em escrever um, modéstia à parte”, afirmou. Entre os trabalhos realizados, alguns marcaram sua trajetória. Anos atrás, por exemplo, uma mulher que havia morrido em decorrência da Aids foi enterrada no horário de fechamento dos portões, 18h. “Foi uma cena triste. Estava escuro e só vieram os dois filhos acompanhá-la”, explicou. Ele também participou do enterro do funkeiro MC Daleste, assassinado a tiros no palco enquanto se apresentava em julho de 2013, cuja sepultura é a mais visitada do local.

Cemitério da Vila Formosa é o maior do Brasil
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Foto: Fábio Santos / Terra

“E já enterrei três conhecidos, entre eles o padrinho do meu filho. Foi complicado. Eu até costumava brincar: ‘ainda vou enterrar você’. Ele morreu em um domingo em que eu estava de plantão. Conhecia todas as pessoas que vieram. Foi uma barra. Mas pelo menos demos o destino final a ele, fizemos o mínimo”, conforma-se. “Fora isso, temos que ser profissionais. Não dá para se envolver. Mexemos com dor, sentimento. Nosso serviço tem que ser respeitoso. Já fui ofendido algumas vezes. ‘Está jogando terra na minha mãe’, coisas assim. Mas depois a família pede desculpa. Temos que entender a situação”, concluiu.

Pastor não acredita em assombrações e não conhece nenhuma “lenda de terror” do Vila Formosa. “Não tenho o dom de ver essas coisas. E espero não ter nos próximos 40 anos que vou ficar aqui.” A previsão foi dita em tom de brincadeira, mas pela energia que demonstra, não é de duvidar que ele chegue lá. E depois? “Não quero sair nem morto. Já falei para minha família. Com certeza serei enterrado aqui. Me dedico ao Formosa e é nele que vou terminar meus dias”.

Assim a reportagem se despediu. Mas não antes de, como não poderia deixar de ser, ele contar uma última história para demontrar, mais uma vez, toda sua articulação e cordialidade.

“Outro dia veio um rapaz aqui. Um jornalista brasileiro que mora na Suíça. Estava fazendo uma matéria sobre as imagens de times de futebol e santos de devoção das lápides. Achou curioso por que na Suíça eles colocam só brasões. Por mais pobre que seja, a família coloca brasão. Fizemos um tour em dois finais de semana e ele contou que, em uma dessas visitas, ele disse a umas pessoas o que estava fazendo e o chamaram de ‘vagabundo’. Mandaram ‘procurar um trabalho’ (risos). Mas não acho. O que vocês fazem é muito relevante”.

Fonte: Terra

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