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Contra assassinatos, dupla desce viaduto de rapel e para trânsito

7 dez 2012
19h10
atualizado às 19h20
Vagner Magalhães
Direto de São Paulo

São Paulo, 7 de dezembro de 2012, 16h50. Dia e horário de trânsito pesado. Quatro motociclistas estacionam suas motos na rua Tomás Carvalhal, na região da avenida Paulista, em São Paulo, e tranquilamente começam a desmontar a sua tralha. Ursão, como é conhecido na região do Capão Redondo, na zona sul da capital paulista, retoca a sua pintura. Veio fantasiado como Shrek. Passa tinta verde no rosto, coloca orelhas postiças e se diz pronto. Ao seu lado, Seg faz o mesmo. Pinta o rosto de branco, coloca uma bandana com várias caveiras na cabeça e também diz que está tudo pronto.

Ursão, como é conhecido na região do Capão Redondo, na zona sul da capital paulista, liderou o protesto fantasiado de Shrek
Ursão, como é conhecido na região do Capão Redondo, na zona sul da capital paulista, liderou o protesto fantasiado de Shrek
Foto: Fernando Borges / Terra

Outros dois amigos que os acompanhavam, cuidam do resto. Amarram cordas na grade do viaduto Santa Generosa, sobre a avenida 23 de Maio, e em poucos minutos dão o sinal verde. Uma faixa é estendida e os dois, cada um em sua cadeirinha, começam a descer utilizando técnicas de rapel. A faixa é aberta: "4.500 assassinatos só este ano. Lembraremos do banho de sangue em 2014 nas urnas." Mais abaixo: "chega de sangue". A adesão é quase imediata. Pessoas começam a parar em cima do viaduto e em pouco tempo uma senhora oferece uma garrafa de água gelada para Ursão. A temperatura passava dos 30ºC e a transpiração já era evidente.

Ao ver o homem pintado de verde, um pedestre provoca: "pode ficar pendurado aí até o ano que vem que o Palmeiras não sobe." A polícia demorou cerca de meia hora para chegar e perceber o que estava acontecendo. Um PM disse que até concordava com o protesto, mas pedia para que os homens subissem. A resposta foi clara: "não dá pra subir, só para descer". Uma multidão se formou. Pessoas tirando fotos, inclusive motoristas. Em pouco tempo, uma pequena colisão traseira. Um PM, ironicamente, ameaçou cortar a corda. Nenhum dos dois se moveu. Devolveram a provocação com beijos.

Chega o Corpo de Bombeiros. Cuidadosamente a equipe começou a amarrar suas cordas na grade do viaduto. Às 17h50 a companhia de Engenharia de Tráfego fecha o trânsito em direção à região central. Centenas de motoqueiros assistem a cena da primeira fila. O primeiro a ser retirado é Seg. Ao seu lado, o bombeiro se prende a ele e os dois descem. Mais pesado, Shrek também é retirado. Ambos são levados à delegacia e o material apreendido. Calmamente, um PM explica que eles cometeram uma contravenção penal. Eles sabem que vão tomar uma canseira na delegacia. Mas o recado foi dado.

"A pegada é o nosso movimento, que começou na nossa região, no Capão Redondo. Fizemos um protesto em um muro e a Prefeitura apagou o muro. Isso faz 21 dias hoje. Era um protesto era contra a violência. Quando eles apagaram, a gente fez o mesmo protesto na avenida Carlos Caldeira e na estrada de Itapecerica. Aí a Prefeitura apagou de novo", diz Ursão. Injuriado, ele juntou os amigos e teve uma idéia: "Vamos para a ponte". Ele conta a nova estratégia: "Primeiro fomos na João Dias, depois na Ponte Estaiada, utilizando as mesmas técnicas". Assim como nesta sexta-feira, também foram levados para a delegacia.

Ursão diz que tem uma empresa de pinturas e reformas na região do Capão Redondo. Se diz refém da violência. Seg trabalha com ele. "A gente é do bem há muito tempo. Estamos em cárcere privado. Tem de ficar dentro de casa, entendeu?" Seg conta que todos eles participam de um motoclube. Curtem rock e se dizem pacifistas. "Tá difícil até para a gente. Temos um visual meio esquisito e somos parados a toda hora. Até descobrirem que não somos bandidos, tomamos muita bicuda da PM na canela. Enquanto eles não sabem se você é ou não, você é vagabundo".

Fonte: Terra

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