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Cidades

Ossos aparecendo e lixo: desafios de um cemitério gigante

Fábio Santos / Terra

Apesar das melhorias nos últimos anos, ainda é possível encontrar ossos jogados em várias partes do Vila Formosa

3 ago 2015
07h23
atualizado em 4/8/2015 às 06h41
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O cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, de uma maneira ou de outra fez parte da minha infância. Durante 12 anos morei a poucos quilômetros do maior cemitério do Brasil e fui a alguns sepultamentos no local, famoso durante anos tanto pelo tamanho quanto pelo descaso. Lembro que, em algumas das vezes em que estive no cemitério, me surpreendi ao ver no solo alguns ossos humanos. Apesar do momento da perda de algum ente querido, essas imagens sempre ficaram na minha cabeça quando eu pensava no Vila Formosa.

Agora, durante a produção desta reportagem, no trabalho de reconhecimento do local, encontrei novamente – juntamente com as repórteres Elisa Feres e Victória Matsumoto – alguns vestígios de corpos humanos abandonados perto de covas recém-abertas.

Nossa caminhada começou junto ao Terminal Carrão de ônibus, na avenida Dezenove de Janeiro. Nos primeiros metros, o que encontramos foram algumas áreas com lixo deixados por visitantes que aproveitam o espaço para consumir bebidas alcoólicas.  Em quase meia hora de caminhada, o que percebi foi que o local parecia mais bem cuidado em relação à minha última visita em 2011, mas ainda estava (muito) longe de ser um exemplo de conservação.

Lixo deixado por frequentadores fazem parte da paisagem do cemitério
Lixo deixado por frequentadores fazem parte da paisagem do cemitério
Foto: Fábio Santos / Terra

Andando por uma das dezenas de ruas de terra que cruzam o Vila Formosa II, encontramos o primeiro osso humano. Ele estava lá, jogado, em uma depressão na rua de terra batida. Ao que tudo indica, aquela ossada havia sido arrastada por uma das fortes chuvas que atingiram a cidade nos dias anteriores.

Osso foi o primeiro encontrado pelo Terra, em uma das ruas do cemitério
Osso foi o primeiro encontrado pelo Terra, em uma das ruas do cemitério
Foto: Fábio Santos / Terra

Mais sinistro do que encontrar um osso humano durante uma caminhada foi perceber que acima de nossas cabeças havia um urubu enorme, apenas observando o nosso movimento. Para nossa surpresa, esse foi apenas um dos urubus que iríamos encontrar até o final daquele dia.

Continuando a nossa jornada, chegamos finalmente a um local de covas novas. De acordo com as regras do lugar, a cada três anos um corpo sepultado precisa passar por exumação para que seja removido da cova, para que esta possa ser ocupada por um novo cadáver. É neste processo de exumação que provavelmente alguns descuidos ocorrem e ossos humanos acabam ficando pelo caminho.

Logo de cara, encontramos um osso pequeno. Minutos depois avistamos outras partes, quebradas ou praticamente inteiras: vértebras, dedos, pedaços da bacia e até uma dentadura. O mais impressionante é que esses ossos estão ao lado de locais reservados para novas sepulturas, ou seja, quem vai enterrar um amigo ou parente muito provavelmente irá se deparar com algum pedaço de osso humano jogado ao chão.

Segundo o administrador do cemitério Vila Formosa II, Roberto Batista, todos os ossos provenientes de exumação devem ser ensacados e enviados para os ossários. O funcionário informou ainda que iria avaliar as denúncias feitas pelo Terra no caso de ossos encontrados no chão.

“De manhã é feita a abertura da cova para novos sepultamentos e esses ossos são ensacados. Se vocês encontraram ossos, a gente precisa verificar, pois isso não pode acontecer”, disse à nossa reportagem.

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Sujeira e focos de dengue
Pela dimensão descomunal do cemitério, também não foi difícil encontrar locais com bastante acúmulo de lixo e entulhos. Alguns vasos utilizados em cultos religiosos e abandonados pelos visitantes foram vistos com água acumulada, o que pode gerar a proliferação do mosquito da dengue.

De acordo com o administrador do Vila Formosa II, uma empresa terceirizada cuida da limpeza das áreas verdes, fazendo trabalho de varrição e roçagem. “A limpeza é constante, indo de uma quadra para outra. Quando se dá a volta em todo o cemitério, já tem que voltar para começar a limpar novamente. São feitas limpezas todos os dias”, disse Roberto Batista.

Sobre a existência de possíveis focos da dengue, o administrador ressaltou que os funcionários são orientados a retirar todos os vasos que possam acumular água.  “Essa é uma preocupação nossa constante. Todos os dias eles passam em todas as quadras, recolhendo sacolinhas e vasos. Os vasos que vocês encontraram são do dia anterior, pois os munícipes vêm e deixamos vasos aqui. Graças a Deus não tivemos nenhum caso de dengue dentro do cemitério”.

Vaso com água parada foi encontrado em uma das áreas do cemitério
Vaso com água parada foi encontrado em uma das áreas do cemitério
Foto: Fábio Santos / Terra

Para Batista, a limpeza é um dos principais desafios de um cemitério deste tamanho, assim como a segurança. O funcionário chegou a se queixar do pouco patrulhamento que ocorre no local, que acaba facilitando a ação de criminosos. “Temos uma equipe da GCM, que tem uma base aqui, mas eles fazem duas rondas por dia, mas não temos carros constantemente para fazer esse trabalho”, disse ele.

Segundo o administrador, reclamações de assaltos são comuns, mas nem sempre as vítimas chamam a polícia para protocolar um boletim de ocorrência. “Recebemos reclamações constantes. Tem família que vem reclamar que foi assaltada, mas a gente orienta a fazer um B.O, pois a polícia alega que não existem registros de ocorrência aqui dentro. É sempre importante fazer esse trabalho de registro das ocorrências”, ressaltou.

Quadras interditadas

Quadra abandonada com uma cruz solitária, quase sem identificação
Quadra abandonada com uma cruz solitária, quase sem identificação
Foto: Fábio Santos / Terra

Durante nossa caminhada pelo cemitério, avistamos algumas quadras completamente fora do padrão do cemitério. Ao invés de túmulos com acúmulo de terra sobre o solo, apenas cruzes bem antigas enfeitavam os terrenos. Segundo a administração, a visão faz parte de um passado bem distante do Vila Formosa, do tempo em que as sepulturas não eram padronizadas.

“Aquelas são quadras interditadas que a gente não usa mais. As famílias, se quiserem, podem exumar (os corpos que ainda existem no local), mas as quadras não são mais usadas para sepultamento. Essas quadras foram interditadas pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) para evitar a contaminação do solo, devido ao nível do lençol freático”, disse o administrador.

Em outra área do cemitério, uma cruz antiga em um terreno interditado pela Cetesb
Em outra área do cemitério, uma cruz antiga em um terreno interditado pela Cetesb
Foto: Fábio Santos / Terra

A ação do tempo em tais lotes, no entanto, impede que túmulos sejam identificados diante de uma enorme área verde. Mesmo em túmulos em áreas ativas, encontramos vários níveis de abandono, a ponto de pisarmos em sepulturas sem perceber que havia alguma pessoa enterrada ali.

Cores e enfeites

Catavento colorido virou moda no cemitério
Catavento colorido virou moda no cemitério
Foto: Fábio Santos / Terra

Voltando para o ano de 2011 e comparando com o cemitério atual, uma das principais mudanças que pude notar foi na parte decorativa dos túmulos. Ao que parece, uma grande indústria surgiu nessa área e o local, apesar da temática fúnebre, parece muito mais colorido e descontraído.

Cataventos são a nova sensação no cemitério da Vila Formosa. Com diversos formatos e cores, os objetos decoram os túmulos – principalmente os das crianças – e geram uma vista em que nada lembra um cemitério convencional.

Além dos cataventos, encontramos diversos tipos de enfeites, como bonecos, carrinhos e brinquedos. É uma pena que, com o passar do tempo e a falta de manutenção, esses objetos acabem virando lixo e deixando os locais com a tristeza compatível com um cemitério.

Em alguns túmulos, bonecos são usados para enfeitar e colorir o ambiente
Em alguns túmulos, bonecos são usados para enfeitar e colorir o ambiente
Foto: Fábio Santos / Terra

Essas foram algumas da histórias que encontramos no maior cemitério brasileiro. Continue navegando e saiba ainda mais sobre os bastidores do Vila Formosa:

Fonte: Terra

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