0

Após 1 ano da tragédia, Morro do Bumba é chamado de cemitério

2 abr 2011
23h43
atualizado às 23h56

A dois dias de completar um ano da tragédia que, em abril de 2010, pôs fim a 267 vidas, o silêncio e o vazio onde antes havia dezenas de casas fez o morro de Niterói ganhar novo nome entre os vizinhos: Cemitério do Bumba. Para ao menos seis famílias, não é metáfora. Até hoje, não receberam os corpos dos parentes, cujas biografias ficaram em meio a lixo e escombros. Lá, na noite de 7 de abril, a desgraça rasgou a história de 45 famílias.

Operários fazem escavações em busca de vítimas do deslizamento no morro do Bumba
Operários fazem escavações em busca de vítimas do deslizamento no morro do Bumba
Foto: AP

O número de casos assim pode ser ainda maior, já que famílias inteiras foram soterradas, sem sobreviventes para reclamar os corpos. Morador da comunidade há mais de 30 anos, Joel Gomes, 53 anos, conhecia todos os 45 mortos resgatados da enxurrada que varreu o Bumba. A casa dele é uma das poucas que resistiram na encosta, hoje coberta por gramado verde.

"Quando anoitece, o morro passa ainda mais tristeza. Todos os meus amigos de juventude desapareceram. Olho para baixo e não vejo mais as luzes de casas e vendinhas, não escuto a música do barzinho. Agora é tudo escuro e silencioso", conta o aposentado, lembrando amigos como Jorsânia de Oliveira , 53, cujo corpo nunca foi localizado. "Acharam um braço e disseram que era dela, mas o corpo não apareceu".

A dona de casa Luanda Ferreira Gama, 28 anos, tem o sono interrompido pelos dois filhos toda noite. Os meninos, de 8 e 6 anos, choram pela ausência do pai, Reginaldo Sejanoque, 38, outra vítima que não foi resgatada do Bumba. "Meu filho acorda às 3h chorando, perguntando onde está o pai. Lembro que saí do morro às 13h, naquele dia. Meu marido ficou para guardar a casa. Na família dele foram oito mortos, entre irmãos e sobrinhos. Só o corpo dele não apareceu", lembra Luanda, que fez plantão no Bumba no período de buscas.

"Ficava na frente do IML e, cada corpo que chegava eu pedia para reconhecer. Mas as buscas terminaram e a agonia continuou. Cheguei a subir o morro procurando. Mas os bombeiros me disseram que não havia mais condições de encontrar nada". O eletricista Marcelo de Sousa, 34, fez buscas na esperança de encontrar a tia Maria de Lourdes Fonseca da Silva, 38. "Foi em vão. Não pudemos fazer o enterro. Os filhos dela ficaram tão abalados que foram embora de Niterói", contou.

Sem certidões
Além de conviver com a dor, parentes de vítimas que não tiveram os corpos encontrados sofrem com a burocracia. Muitos ainda não têm a certidão de óbito, comprovando a morte. O presidente da Associação de Vítimas do Morro do Bumba, Francisco Pereira de Souza, diz que falta apoio do poder público. "As pessoas ficaram abandonadas. Conseguimos um advogado, para agilizar a documentação. Há famílias passando dificuldades sem o atestado de óbito para dar entrada em pensões e benefícios".

A dona de casa Luanda Ferreira conta que sobrevive com a ajuda de parentes e amigos. "Minha única renda é o aluguel social, que está atrasado. Recebi uma parcela semana passada, mas faltaram duas. Hoje, se um dos meus meninos ficar doente, não tenho como comprar um remédio".

O advogado João Tancredo, que defende as famílias, diz que enfrentou preconceito no processo para retirada da declaração de morte presumida. "Infelizmente, por se tratar de pessoas humildes, houve preconceito. Questionaram se as vítimas estavam mesmo no morro. Se fosse a queda de um avião, acredito que teria saído rápido", diz João, que prevê para maio a entrega de certidões de óbito às famílias.

Segundo a Associação de Vítimas do Morro do Bumba, outros desaparecidos na tragédia são: Margarida Rita da Silva, Zileide Maria de Santana e uma mulher identificada apenas como Irene.

Vítimas dos deslizamentos
A tragédia no Morro do Bumba foi apenas um capítulo no drama enfrentado por moradores do Rio na primeira quinzena de abril de 2010. O caos começou na noite de 5 de abril, quando um forte temporal - apontado como o pior desde 1967 - arrasou a Região Metropolitana. Na terça-feira, 6 de abril, o Rio amanheceu debaixo d'água. A fúria da chuva pôde ser sentida em diferentes pontos da capital.

Na Zona Sul, a Lagoa Rodrigo de Freitas transbordou. Nem o Cristo Redentor escapou, tendo seus acessos interditados por quedas de barreiras. No Centro, zonas Norte e Oeste, vias importantes inundaram. Os estádios do Maracanã e Maracanãzinho também ficaram submersos.

Mas pior que o caos na cidade foi a consequência dos deslizamentos de encostas. Houve mortos em soterramentos nos morros dos Prazeres, em Santa Teresa; Borel, na Tijuca; Andaraí; Cerro Corá, Cosme Velho; Macacos, em Vila Isabel. O total de mortos chegou a 257 em todo Estado. Só Niterói contabilizou 168 vítimas. O número de desabrigados ultrapassou os 11 mil, contando Rio, Niterói, São Gonçalo e Baixada.

Fonte: O Dia

compartilhe

publicidade