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Ex-consultor de Dilma: ‘governos têm atuação ridícula nas redes sociais’

18 jun 2013 17h43
| atualizado em 19/6/2013 às 10h57
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Os governos e partidos políticos não têm sido capazes de entender as reivindicações que se originam das redes sociais, é o que afirma o ativista do Software Livre Marcelo Branco (ex-diretor da Campus Party Brasil e coordenador para mídias sociais da campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2010).

<p><strong>6 de junho</strong> No dia 6 de junho, a cidade de São Paulo parou por causa do protesto "Se a tarifa aumentar São Paulo vai parar", contra o aumento das passagens de ônibus, trens e Metrô. Milhares de manifestantes foram às ruas exigir a diminuição da tarifa do transporte coletivo e acabaram entrando em confronto com a polícia</p>
6 de junho No dia 6 de junho, a cidade de São Paulo parou por causa do protesto "Se a tarifa aumentar São Paulo vai parar", contra o aumento das passagens de ônibus, trens e Metrô. Milhares de manifestantes foram às ruas exigir a diminuição da tarifa do transporte coletivo e acabaram entrando em confronto com a polícia
Foto: Gabriela Biló / Futura Press

Segundo ele, ao se comunicarem com o público da "sociedade em rede", os governos o fazem de maneira vertical, de cima para baixo, de forma muito diferente da caráter colaborativo que ganha força online.

"É um dilema entre dois mundos: a democracia limitada e representativa, e, de outro lado, as vozes que vêm das redes e das ruas querem democracia direta, online, em tempo real, querem construir programas colaborativos como eles fazem em seu cotidiano para outras questões, compartilhando músicas, textos", afirma Branco.

Branco diz que tem participado das recentes manifestações em Porto Alegre, mas faz questão de ressaltar que não busca influenciar de nenhuma forma os atos. "Sou apenas um coroa observando os jovens, e aplaudindo". Confira abaixo a entrevista do Terra com Marcelo Branco.

Sobre as manifestações que tomaram conta do Brasil
Marcelo Branco: É a grande novidade política desse século. São grandes movimentos de massa - Turquia, Mundo Árabe, Espanha, Occupy Wall Street - que têm levado pessoas as ruas e não têm sido organizados por instituições tradicionais típicas da era industrial: partidos e sindicatos. Eles já têm incorporados os novos valores típicos da sociedade em rede: indivíduos multimídia conectados e organizados em torno de temas pontuais, ou gerais, grandes movimentos de massa que vão as ruas sem intermediários.

Era industrial X Era digital
Marcelo Branco: Na era industrial, os partidos políticos e os sindicatos intermediavam a relação entre a relação entre o indivíduo e o público. Pelo ambiente tecnológico em que vivíamos, qualquer manifestação passava por estas organizações. Com a chegada da internet, principalmente quando grandes massas passam a utilizar a internet como uma ferramenta de comunicação global, é obvio que os movimentos sociais também mudam sua forma de organização.

Características comuns aos movimentos ao redor do mundo
Marcelo Branco: Esses movimentos têm uma mesma característica.  A partir de uma causa inicial, colocam nas ruas milhares, milhões de pessoas, sem a intermediação de um partido, de um sindicato. Isso leva a diluição da liderança, portanto não existem lideranças que os representem. Se não há intermediário, não há representantes. Quem falava pelo movimento na Espanha, no mundo árabe, eram redes de colaboração que formam uma liderança coletiva. Cada pequena contribuição, pequena ajuda, pequena proposta, somadas na rede geram essa mobilização geral. Independente se é para derrubar uma ditadura, o sistema capitalista, contra o desemprego, ou causas diferentes, todas elas têm em comum que são indivíduos sem intermediários, sem representantes e lideranças definidas.

Movimentos contra a violência
Marcelo Branco: Esses movimentos, via de regra, são contra a violência. Em são Paulo, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, a palavra de ordem é não a violência. O que a gente tem observado, fora do Brasil e aqui também, é que a polícia e as forças de segurança pública não entendem o que está acontecendo e não tem como responsabilizar, ou prender, o líder do movimento, porque esses líderes estão difusos, diluídos em uma rede de colaboradores sem hierarquia definida. A postura da polícia tem sido uma agressão violenta generalizada contra todos os manifestantes. Então, quando há um ato isolado, a reação da polícia tem sido atirar fogo contra todos os manifestantes. As forças de segurança pública não conseguem conviver com uma nova democracia, com uma democracia em que os movimentos sociais estão organizados em rede. A repressão brutal que esses movimentos estão sofrendo é típica de ditaduras.

Governos e partidos não entendem as redes sociais
Marcelo Branco: Os governos e partidos têm um trabalho ridículo nas redes, não as entendem. Eles fazem comunicação broadcasting (transmitem em vez de dialogar), fazem publicidade do governo. Os governos desconhecem o que são as mídias sociais. Menosprezam o trabalho das mídias sociais.

Legitimidade das múltiplas causas
Marcelo Branco: Esses conflitos tendem a continuar, a se amplificar, a ganhar novas causas. Aquilo que era uma luta contra o aumento da passagem, agora é uma pauta de reinvindicações enorme. Se tu fores olhar, todos os itens dessa pauta são legítimos. São itens que todos nós, sendo de esquerda ou de direita, queremos que sejam resolvidos. Não podemos ser a contra a pauta de reinvindicações porque ela tem 20, 30, 50 itens.

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Repressão policial
Marcelo Branco: Eu acho que o principal responsável pela desordem pública que o Brasil, pela possível instabilidade politica, é a ação truculenta das forças de repressão. Se não tivesse acontecido a violência que aconteceu em São Paulo, a violência que aconteceu em Porto Alegre desde a primeira manifestação, por parte da polícia, esse movimento não teria crescido como cresceu.  As forças de segurança causaram a desordem. Foram elas que responderam uma manifestação democrática de forma não democrática, violenta. Nós vivemos no Brasil uma falência das forças de segurança pública, incapazes de lidar com esses novos movimentos sociais de norte a sul do Brasil.

Resposta do Estado
Marcelo Branco: Eu acho que a saída é o Estado se preparar para atender as demandas sociais, não só para perguntar o que se acha de suas ações, comentar os assuntos do governo.  Se preparar para dar respostas em tempo real para cada tipo de questionamento vindo de baixo para cima. Os governos tentam pautar as mídias sociais com assuntos do governo e acreditam que com isso estão democratizando o Estado através delas. Esse momento é um bom teste para toda tentativa de governo aberto, para toda iniciativa que diz usar as mídias sociais, para que respondam as pautas que vêm das redes para o governo. As redes sociais estão há mais de duas semanas perguntando, e o governo não responde, continua querendo pautar as redes. A verdadeira democracia que pretende usar as redes sociais como plataforma, que responda na mesma velocidade, com as mesmas ferramentas usadas no protesto, é ouvir e ser pautado pelas mídias sociais com os assuntos que interessam a população e que ela joga na rede como um assunto importante para si.

Democracia 2.0
Marcelo Branco: Quando as mídias sociais falam contra o aumento da passagem, nenhum instrumento democrático de governo respondeu. Quando falam em violência policial, nenhum instrumento democrático 2.0 de governo respondeu e dialogou com esses manifestantes que estão apanhando na rua. Fazer política 2.0 de governo ou governo digital sem ouvir as mídias sociais é um equívoco. E é isso que a gente está vivendo nesse momento. Os governos não entendem o que está acontecendo, os partidos não entendem o que está acontecendo, porque eles estão fora das redes sociais.

'Sofativismo'
Marcelo Branco: O 'sofativismo' tem que ser respondido com as mesmas ferramentas com as quais ele pergunta. As mídias sociais são uma via de duas mãos. É mais escuta do que fala. É diferente do portal, do rádio, da TV e do jornal que falam para o público. Mídia social é um diálogo, nós temos que escutar, que ouvir, seja como estratégia de uma marca privada, seja como estratégia de governo. O governo monitora as redes, só que o governo não responde. Se tu fores olhar o que os governos federal, estadual e municipal estão falando atualmente nas redes sociais, não tem nada a ver com o que elas estão perguntando. De um lado temos o governo transmitindo informações e de outro a população indignada tentando pautar o governo com assuntos que lhe interessam. O governo quer dizer que está fazendo obras, quer mostrar o discurso, e está surdo para as redes sociais.

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Diluição de causas
Marcelo Branco: A pauta de reivindicações realmente é enorme porque esses movimentos não têm uma pauta de curto prazo. Os militantes partidários, os governos, estão preocupados com as eleições do ano que vem, daqui a três anos. É uma pauta de curto prazo, pequena diante da pauta dos movimentos nas redes, que querem mudar o sistema político, as relações de poder na sociedade. Não é quem ganha as eleições, o Fla-Flu, tucanos e petistas, Tarso (Genro, governador do RS), (José) Fortunatti (prefeito de Porto Alegre), (Geraldo) Alckmin (governador de São Paulo), é algo muito maior o que está em pauta nesses debates. Esses movimentos estão pautando não só uma indignação, mas também uma esperança para uma democracia de nova ordem.

Democracia representativa X Democracia online
Marcelo Branco: Eu não acredito que esse é um movimento que vai tomar o poder, mas é a esperança do futuro, esses movimentos não são contra a democracia, eles questionam os limites da democracia e os limites das instituições que existem hoje.  Qualquer um sabe que os parlamentos são espaços muito limitados de democracia. Esses movimentos querem democracia direta, tomadas de decisão online, querem processos de construção de programas públicos wiki, através de processos colaborativos. É a primeira vez que a geração Y, os nativos digitais, são protagonistas das manifestações no Brasil e em todo mundo.

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Fonte: Terra
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