- Marina Novaes
- Vagner Magalhães
- Direto de Santo André
Três anos e quatro meses após a morte de sua ex-namorada Eloá Pimentel, o réu Lindemberg Alves Fernandes ofereceu, pela primeira vez - ele havia permanecido em silêncio em depoimentos à polícia -, a sua versão para o que ocorreu nos cinco dias em que a manteve em cárcere privado, que terminou com a morte dela e um tiro contra a amiga Nayara Rodrigues. Foram seis horas de interrogatório em que ele respondeu questionamentos da juíza Milena Dias, da promotoria e dos advogados de acusação e defesa. Logo no início, o réu pediu perdão à família de Eloá, que permaneceu no plenário durante todo o tempo.
"Eu vim para contar a verdade, porque eu tenho uma dívida muito grande com a família dela. Eu queria pedir perdão em público, porque eu entendo a dor da Dona Tina (em referência a Ana Cristina, mãe de Eloá). Eu queria pedir perdão pra ela por tudo o que aconteceu", disse.
Ele disse que não tinha a intenção de matar a estudante, que tem dúvidas se partiu de sua arma o tiro que atingiu Nayara e que não atirou dentro do apartamento nos instantes que antecederam a invasão da polícia. Segundo ele, a invasão naquele momento foi desnecessária e contribuiu para o desfecho do caso.
Na abertura dos trabalhos, o primeiro-tenente da Polícia Militar Paulo César Schiavo, manteve a versão de que a invasão ao apartamento se deu após o disparo de um tiro por parte do réu. "Houve um disparo anterior ao acionamento do explosivo e, depois disso, pelo menos mais dois disparos." No primeiro dia de julgamento, Nayara Rodrigues, que também esteve no cativeiro, afirmou que a invasão aconteceu sem que tivesse havido um disparo no interior do apartamento.
Em uma fala com poucas demonstrações de emoção, Lindemberg negou ter invadido o apartamento de Eloá com intenção de matá-la e tampouco tê-la agredido no tempo em que permaneceram no domicílio. De acordo com o réu, eles haviam reatado o namoro pouco antes do episódio - o que os amigos dela negam -, sendo que ela teria "ficado" com o amigo Victor, que estava no apartamento quando Lindemberg chegou.
Apesar admitir ter ficado nervoso com a suposta traição, Lindemberg negou ter agredido os amigos de Eloá e afirmou ter dado oportunidade para que todos, menos a ex-namorada, deixassem o apartamento. "Eu não deixei o apartamento porque estava com medo da polícia. O clima estava muito tenso. Eu ia em uma janela e via polícia. Ia em outra e era a mesma coisa. Eu não entendia nada de polícia. Para mim, era tudo novo."
Segundo ele, a arma usada no crime foi comprada por R$ 700, cerca de 20 dias antes, devido a três ameaças telefônicas de morte. A arma teria sido vendida por um homem que o réu conheceu enquanto praticava atividades físicas em um parque da cidade. Ainda de acordo com o depoimento, Lindemberg só entrou armado no apartamento por essa razão, e não para coagir a vítima. "Eu levava a arma para onde fosse", afirmou.
Lindemberg disse ainda que, em alguns momentos, Eloá ficava "histérica" com a situação. "Quem estava do lado de fora imaginava que eu estava batendo nela", disse.
Tiros e explosão
O acusado disse que ele, Eloá e Nayara estavam prontos para deixar o apartamento quando a porta foi derrubada por uma explosão provocada pelos PMs. "Depois da explosão, sem pensar, atirei. Infelizmente não pensei. Ela (Eloá) fez um movimento que de ia tirar a arma da minha mão. Tomei um susto e atirei", disse.
Lindemberg afirmou que gosta de lembrar da ex-namorada e que ela "nunca foi má", garantindo que se emociona ao pensar em Eloá. "Não vim aqui para dar show, para comover ninguém, mas, quando lembro dela, me emociono." Sobre Nayara, que por duas vezes esteve no cárcere, ele também disse ter bons sentimentos. "Tenho um carinho muito grande pela Nayara até hoje. Se for comprovado que o tiro que a atingiu partiu da minha arma, também peço perdão", disse.
À promotora Daniela Hashimoto, Lindemberg negou que as ameaças de morte contra Eloá tenham sido reais. "Pode ser que eu tenha dito, mas eu não me lembro. Muita coisa que eu disse foi um blefe", afirmou o réu, após a promotora lembrar que ele havia dito à PM que iria matar a estudante e depois se suicidar - a declaração, gravada, foi feita por telefone ao negociador do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) Adriano Giovanini.
Questionado pela promotora sobre o que garantia que ele dizia a verdade em plenário, já que testemunhas relataram que ele não havia cumprido sua palavra na ocasião do crime, Lindemberg voltou a afirmar que não iria mentir em respeito à família de Eloá, que assistia ao julgamento. "A garantia é pela perda da família. Eu convivi com eles, eu criei um laço com eles. Eu estou encarcerado porque estou pagando pelo que eu fiz."
Promotora defende advogada
Na abertura dos trabalhos, Hashimoto saiu em defesa da advogada de Lindemberg, Ana Lúcia Assad, hostilizada na tarde de ontem por cerca de 200 pessoas que acompanham o julgamento na parte externa do Fórum de Santo André. Quando ela tentou sair para almoçar, foi xingada e teve de retornar, deixando o prédio em um carro da polícia.
"Os cidadãos de bem não podem se igualar às pessoas que cometem crimes e devem prezar pela diversidade de opiniões", sustentou Hashimoto.
Ao todo, 14 testemunhas foram ouvidas ao longo dos três dias de julgamento, que deve ser concluído na quinta-feira. Acusado de ter cometido 12 crimes, Lindemberg pode ser condenado a até 100 anos de prisão.
O mais longo cárcere de SP
A estudante Eloá Pimentel, 15 anos, morreu em 18 de outubro de 2008, um dia após ser baleada na cabeça e na virilha dentro de seu apartamento, em Santo André, na Grande São Paulo. Os tiros foram disparados quando policiais invadiam o imóvel para tentar libertar a jovem, que passou 101 horas refém do ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes. Foi o mais longo caso de cárcere privado no Estado de São Paulo.
Armado e inconformado com o fim do relacionamento, Lindemberg invadiu o local no dia 13 de outubro, rendendo Eloá e três colegas - Nayara Rodrigues da Silva, Victor Lopes de Campos e Iago Vieira de Oliveira. Os dois adolescentes logo foram libertados pelo acusado. Nayara, por sua vez, chegou a deixar o cativeiro no dia 14, mas retornou ao imóvel dois dias depois para tentar negociar com Lindemberg. Entretanto, ao se aproximar do ex-namorado de sua amiga, Nayara foi rendida e voltou a ser feita refém.
Mesmo com o aparente cansaço de Lindemberg, indicando uma possível rendição, no final da tarde no dia 17 a polícia invadiu o apartamento, supostamente após ouvir um disparo no interior do imóvel. Antes de ser dominado, segundo a polícia, Lindemberg teve tempo de atirar contra as reféns, matando Eloá e ferindo Nayara no rosto. A Justiça decidiu levá-lo a júri popular.
- Especial para Terra











































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