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14 de maio de 2013 • 07h26 • atualizado às 12h24

Cariocas podem ganhar feriadão de 4 dias e meio durante visita do Papa

Em entrevista exclusiva ao Terra, presidente da Rioeventos fala sobre os desafios da organização da Jornada Mundial da Juventude

Bem-humorado, Leonardo Macial diz que trabalha com uma 'foto do Papa e um calmante na gaveta'
Foto: Daniel Ramalho / Terra
  • Marcus Vinicius Pinto
    Direto do Rio de Janeiro
 

Com um público estimado em 1,5 milhão de pessoas, a prefeitura do Rio de Janeiro se diz atenta à "imprevisibilidade" da Jornada Mundial da Juventude, o primeiro grande evento da Igreja Católica sob o comando do Papa Francisco - que parece disposto a quebrar o protocolo e fazer alterações de última hora na própria agenda, divulgada na semana passada. Para minimizar o impacto do megaevento - que, segundo estimativas da prefeitura, concentrará um público semelhante a três Réveillons em Copacabana - na rotina da cidade entre 23 e 28 de julho, os cariocas ganharão ao menos dois dias de feriado em pleno inverno, com a possibilidade de que a folga se estenda até a manhã do dia 29.

O decreto dos feriados depende de aprovação da Câmara Municipal, mas a prefeitura já dá como certa a folga nos dias 25 e 26 de julho, quinta e sexta-feira. Em entrevista exclusiva ao Terra, o presidente da Rioeventos - empresa municipal criada para coordenar os grandes eventos que acontecem na capital fluminense até o próximo ano -, Leonardo Maciel afirmou que a prefeitura ainda estuda a possibilidade de ampliar o decreto até a manhã de segunda-feira, para facilitar a saída dos peregrinos que participarão dos eventos.

Maciel trabalha com uma foto do Pontífice argentino embaixo do seu computador. "A foto do Papa e um calmante na gaveta", brinca, com a experiência de quem já atuou na organização dos Jogos Pan-americanos de 2007 e na candidatura da Rio 2016, e que foi um dos responsáveis pela montagem do Centro de Operações Rio, central de controle da prefeitura para o dia-a-dia da cidade. Ele não revela números, mas estima-se que os gastos apenas da prefeitura com a Jornada Mundial da Juventude, que é um evento privado, cheguem a R$ 30 milhões. "Mas o que se traz de benefícios para a cidade em termos de movimentação do comércio, paga qualquer conta", afirma. Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Terra - Qual é a maior dificuldade da agenda do Papa durante a Jornada Mundial da Juventude?
Leonardo Maciel - Já tínhamos ideia da agenda que seria validada e divulgada. O que mexe um pouco na complexidade é o Angelus (orações celebradas pelo Papa aos domingos) no Palácio São Joaquim na Glória, porque traz mais um complicador. O local é um pouco apertado e vai ser preciso um planejamento especial para o  controle da multidão e da segurança. Teremos que pensar no planejamento viário, desviar trânsito, pensar nos moradores. Mas o resto da agenda não nos causou muita surpresa.

Terra - Como vai ser a chegada do Papa no dia 22?
Maciel -
Chegou a ser anunciado que o Papa chegaria no (Aeroporto Internacional do) Galeão e iria de Papamóvel até o Palácio Guanabara para ser recebido pela presidente Dilma (Rousseff) e outras autoridades. Isso não vai ser assim. A decisão está entre ele ir de carro fechado até algum lugar central e fazer um trajeto curto até o Palácio Guanabara de Papamóvel; ou ir de helicóptero até o III Comar (Comando Militar da Aeronáutica, ao lado do aeroporto Santos Dumont) e, daí, ir em Papamóvel num trajeto mais curto. Não tem sentido levar o Papa de Papamóvel pela Linha Vermelha, se ali não vai ter público para vê-lo.

Presidente da Rioeventos atua na organização da Jornada Mundial da Juventude
Foto: Daniel Ramalho / Terra

Terra - O Papa vai andar mais de helicóptero no Brasil que de Papamóvel?
Maciel -
O deslocamento depende muito da agenda e do que o Papa decidir. Temos todo o planejamento para o caso de o Papa querer ir para Guaratiba, por exemplo, de helicóptero ou em carro fechado. Só que quando se fala do Papa se fala de todo o séquito. Quando se fala em helicóptero se fala em todo um esquema de segurança e o deslocamento terrestre se torna mais viável. A comitiva dele deve ter umas 40 pessoas, mais as pessoas do Comitê Organizador Local, mais os jornalistas e outros credenciados. Em Copacabana está tudo fechado. Ele vai de helicóptero até o Forte de Copacabana, vai de Papamóvel até o palco e sai de helicóptero do Forte do Leme. Mas nada impede que isso seja alterado. Se estiver chovendo, ele não deve utilizar helicóptero. Mas em se tratando do papa Francisco, há uma grande tendência a quebrar protocolos.

Terra - Copacabana vai ter três eventos grandes, sendo que dois com o Papa.
Maciel -
A verdade é que Copacabana vai ter três Réveillons em uma mesma semana. Quando se tem eventos de grande porte, como os Jogos Olímpicos, pode-se prever quantas pessoas vão passar por um local. Mas um evento como a Jornada Mundial da Juventude é algo imprevisível. Ainda mais com a história da renúncia de um Papa e a chegada de outro carismático, latino-americano. E mais que isso. Muitas pessoas de outras religiões se interessam pela missão papal e isso traz ainda mais público. O que a gente consegue regular? Os peregrinos da igreja que fazem inscrição. Mas tem aquela pessoa que sai, por exemplo, lá do Maranhão, põe a família no carro e decide vir até o Rio conhecer o Papa. Ele não sabe onde vai dormir e nada. Nosso plano está debruçado em cima dos números oficiais, mas nossa atenção é para o imprevisível.

Terra - Com que números vocês trabalham?
Maciel -
Acho que o número não vai extrapolar 1,5 milhão de pessoas. Se forem 750 mil inscritos, trabalhamos com o dobro desse número. Mas não deixaremos de ficar atentos. Temos que levar em conta que o Papa é um de um país vizinho, católico, e vai ser seu primeiro evento oficial. Esperamos muita gente vindo tanto da Argentina, quanto de Uruguai, Chile e Paraguai.

Terra - Como a cidade vai funcionar com tanta gente por tanto tempo?
Maciel -
Como teremos três grandes eventos em Copacabana, temos que preparar a cidade para isso. Vamos ter o Papa na quinta e na sexta-feira em Copacabana e a cidade vai ter que trabalhar em esquema de feriado. Mas não é só isso. Para a cidade, a movimentação não acaba quando o Papa vai embora no domingo à tarde. Talvez seja preciso a manhã se segunda-feira com meio dia de feriado para que os peregrinos que ainda estão no Rio possam sair da cidade. Mas ainda não decidimos nada sobre isso.

Terra - Por que o Cristo Redentor ficou de fora? Foi pedido da prefeitura?
Maciel -
O Cristo Redentor ter ficado fora do roteiro foi uma decisão do chefe da segurança do Papa (Alberto Gasbarri, que visitou a cidade há três semanas). Mas não houve mais limitações da agenda por causa da cidade. Na comunidade de Manguinhos, por exemplo, o primeiro lugar escolhido para a visita era muito apertado. A igrejinha que ele vai visitar agora é na porta da comunidade. A outra era bem no meio e como as ruas são estreitas, a saída seria complicada. Em Varginha há uma área espaçosa e há um campo de futebol onde o Papa deve dar uma benção. Não tinha como tirar isso da agenda. É o perfil do Papa e ele não abriria mão.

Maciel deu detalhes dos preparativos da prefeitura para receber o Papa em julho
Foto: Daniel Ramalho / Terra

Terra - Guaratiba é o maior desafio da organização?
Maciel -
É um grande desafio. Apesar de a Jornada Mundial da Juventude ser um evento privado, vamos dar todo apoio. Nossa ideia é fazer algumas simulações para ver como a área se comporta. Mas estamos debruçados no plano de mobilidade, porque ali não temos histórico de eventos. Quem vai coordenar a segurança vai ser o Ministério da Defesa. O local deve ser fechado a partir das 22h da sexta-feira. No dia da vigília e da missa, as pessoas vão chegar por três pontos: Campo Grande, Santa Cruz e a estação de Notre Dame, no Recreio, e vão caminhar cerca de 13 quilômetros até o Campus Fidei. Nesse percurso, o evento vai prover estrutura necessária com postos de atendimento, de hidratação, de alimentos. Dentro do terreno da missa, a prefeitura não faz nada, é por conta da produtora do evento. Copacabana, por exemplo, é um local público, mas a produtora tem uma série de obrigações a cumprir, como colocar postos médicos, postos de salvamento, licenças do Corpo de Bombeiros.

Terra - Quando se fala em grandes eventos no Rio, se pensa que uma chuva pode estragar qualquer planejamento.
Maciel -
Desde a chuva de 2010 e a criação do Centro de Operações Rio, estamos atentos e com planejamento pronto, esperando que algo aconteça. Mesmo sabendo que as datas da Jornada são de pouca frequência de chuvas fortes, a prefeitura está aprendendo com as chuvas que pegam a gente de surpresa e vai estar preparada. Temos que buscar o menor impacto possível na cidade. A prefeitura não pode errar. A Copa das Confederações é um evento menor, mas também de grande importância. A cidade precisa se beneficiar do planejamento desses eventos. Nosso objetivo não é só realizar o evento com excelência, mas deixar um legado.

Terra