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Campanhas na internet defendem tratamento de Lula no SUS

31 out 2011
19h23
atualizado às 21h08

Daniel Favero

Após o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter sido diagnosticado com câncer de laringe surgiram várias campanhas nas redes sociais pregando que o tratamento fosse feio pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Desde sábado, foram criadas 17 páginas, uma foto usada por um internauta para lançar a campanha teve mais de 120 mil compartilhamentos no Facebook. No Twitter, a hashtag #LulanoSUS foi usada 378 vezes.

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O Hospital Sírio Libanês, onde Lula faz o tratamento, não atende pelo SUS. No entanto, médicos que integram a equipe que assiste o ex-presidente atuam também em hospitais que utilizam o SUS.

Para o deputado federal Osmar Terra (PMDB-RS), que participou da concepção do SUS, no final dos anos 80, se Lula tem condições de fazer o tratamento "ele tem que fazer". "Se ele pode ter esse atendimento diferenciado, como muitos brasileiros têm, tem que fazer, não é colocando ele na fila que vai mudar alguma coisa".

No entanto, ele acredita que a polêmica gerada no ambiente virtual pode servir como motivação para o governo investir mais na saúde, "para que outros milhões de brasileiros tenham oportunidade de ter um atendimento rápido também". "O SUS não pode ter o menor financiamento da história. No governo Sarney, tinha quase o dobro dos recursos que tem hoje proporcionalmente à receita do País. No governo de Fernando Henrique, tinha 1,5% a mais em média da receita bruta do que se tem hoje", disse o parlamentar defendendo a aprovação da emenda 29 com aumento de recursos para a Saúde, em discussão no Congresso.

Segundo o Ministério da Saúde, o SUS é responsável por 80% dos tratamentos de câncer no País. Segundo o ministro Alexandre Padilha, 30 milhões de procedimentos para tratamento do câncer são realizados por anos pelo SUS. "Várias pessoas estão tratando e curando o câncer. Tratar a doença ajuda as pessoas a perceber que é importante o diagnóstico precoce e enfrentar o preconceito contra o câncer. E a forma como o presidente Lula está lidando com o tratamento vai dar mais esta demonstração", disse.

O atendimento pelo sistema é feito nas Unidades de Assistência de Alta Complexidade (Unacon) e nos Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon). Em São Bernardo do Campo, cidade onde Lula vive, o atendimento é feito pelo Hospital Anchieta São Bernardo do Campo, onde funciona uma Unacon com serviço de radioterapia. Na capital, outras sete unidades fazem o tratamento pelo SUS.

No entanto, um relatório elaborado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), referente a 2010, aponta que a capacidade de atendimento do SUS não atende a demanda. As principais deficiências estão relacionadas à demora na realização de exames e tratamento. O tempo médio entre o diagnóstico e início da quimioterapia é de 76,3 dias. Segundo o levantamento, no ano passado, apenas 35,6% dos pacientes conseguiram iniciar o tratamento nos primeiros 30 dias após a confirmação da doença.

Para a realização de radioterapia, o tempo médio de espera foi de 113,4 dias. Para a cirurgia, o tempo médio foi de 35 dias. Em São Paulo, 15,7% são atendidos em até 77 dias, mas a média é de 100 dias de espera.

Médicos entrevistados para a elaboração do relatório disseram que a demora está relacionada com a dificuldade para realização de exames e outros procedimentos de diagnóstico. A biópsia, procedimento que identificou o câncer em Lula, foi apontado, por 73,5% dos médicos, como um dos mais demorados.

Para se ter uma ideia do problema, em países com o Canadá, o tempo médio de espera para o início do tratamento é de seis dias. No Reino Unido, em 92% dos casos o tempo médio de espera é de 15 dias.

Tratamento
De acordo com o levantamento, em 2010, 65,9% dos pacientes que necessitaram passar por radioterapia conseguiram atendimento. Segundo o TCU, o déficit de unidades para este fim é de 135. A carência maior se concentra nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. No Amapá e em Roraima não há serviço de radioterapia. Atas de reuniões do Conselho Consultivo do Inca (Consinca) contabilizam mais de 100 mil pessoas sem assistência e mencionam um "caos" nesse tipo de tratamento no Brasil.

No entanto, o quadro não é o mesmo para quimioterapia. Para este procedimento foram atendidos 292.610 pacientes, apesar da estimativa de tratamento ser de 193.999, uma eficiência de mais de 150%. Entretanto, foi identificado déficit nos Estados do Amapá, Roraima, Maranhão, Rondônia, Amazonas e Pará. Neste último, 40,4% da demanda estimada era suprida.

Já no caso das cirurgias, a deficiência foi de 46,8%, nas unidades especializadas. Entretanto, se forem contabilizados os procedimentos cirúrgicos realizados por todas unidades credenciadas pelo SUS, as 218.930 cirurgias realizadas representam 119,7% da demanda estimada especificamente para o SUS.

Apesar do número de cirurgias estar dentro da meta, a situação varia muito de Estado para Estado. De acordo com o estudo do TCU, gestores de hospitais de Santa Catarina e das cidades de Salvador (BA) e São Luís (MA) informaram a existência de filas. No Pará e em Salvador, a dificuldade é maior para cirurgias de cabeça e pescoço. "Na Bahia, Maranhão, Pará e Santa Catarina, assim como no Distrito Federal, foi identificada a existência de demanda reprimida para a realização de cirurgias", diz trecho do relatório.

O câncer de Lula
Após queixa de dores de garganta, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou uma série de exames na noite de 28 de outubro. Na manhã do dia seguinte, foi divulgado boletim médico do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, informando que foi diagnosticado um tumor maligno na laringe, que seria inicialmente tratado por quimioterapia.

O câncer na região da laringe é mais comum entre homens e o de maior incidência na região da cabeça e pescoço. Os principais fatores que potencializam a doença são o tabagismo e o consumo de álcool. Já os sintomas são: dor de garganta, rouquidão, dificuldade de engolir, sensação de "caroço" na garganta e falta de ar.

Fonte: Terra
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