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Bolsonaro usa microfone da Câmara como cano de esgoto

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

O mistério só foi decifrado quando a psicóloga Odaléa Frazão descobriu o significado de "myramembeca". Até então ninguém sabia porque a alma do Cônego aterrorizava exclusivamente o mulherio, jamais os homens, quando vagava – segundo diziam – pelos corredores e salas de aula. Várias alunas do curso noturno, muitas delas empregadas domésticas, contaram à polícia que no momento em que faziam xixi no banheiro uma voz cavernosa e mefistofélica vinda não se sabe de onde ameaçava com absoluta clareza:

- Mijoooona! Estou vendo tua xoxota cabeluuuda! Vou comer eeela!

Alucinação? Isso acontecia uma ou duas vezes por mês, sempre à noite, no banheiro feminino com a porta fechada. A voz indicava até a cor da calcinha. As agredidas interrompiam a mijada e saíam em disparada humilhante, calcinha nas mãos, perseguidas por palavras que reverberavam em zigue-zague como se surfassem numa onda sonora. Por causa disso, de puro medo, o xixi passou a ser feito em patota. Era o "bonde do mijo". Mesmo assim, como a voz continuou atacando, foi possível registrar o testemunho coletivo, desfazendo qualquer dúvida sobre possível histeria das mulheres. A voz existia mesmo. E era de alguém que estava vendo tudo, porque não errava a cor das calcinhas.

Com medo, várias alunas abandonaram os estudos, outras pediram transferência dali, dando adeus ao GECA (Grupo Escolar Cônego Azevedo), um prédio antigo e mal-assombrado com porão, duas palmeiras na frente e um pé de mandacaru, situado à Rua Xavier de Mendonça, Bairro de Aparecida, em Manaus, capital do Amazonas. O nome é homenagem ao Cônego Joaquim Gonçalves de Azevedo (1814-1879), que foi diretor geral da Instrução Pública na Província do Amazonas e depois bispo de Goiás, Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil.

Gruta-do-amor

Por que um ilustre membro da hierarquia católica faria uma maldade dessas com as mulheres? Mistério. A zeladora do GECA, Maria Tapuia, antes de pedir demissão disse convicta: “a voz é dele”, apontando o retrato a óleo do Cônego pendurado na parede do salão nobre, todo paramentado, com um anelão no dedo. "Só pode ser dele" – confirmou sua substituta Geny Coruja, observando que os olhos autoritários e desorbitados do Cônego pareciam seguir as pessoas em qualquer canto da sala que estivessem.

Quem discordou foi a professora de alfabetização de adultos, Adelaide, com o argumento de que aquela fala não era do Cônego, um defensor intransigente da norma padrão do português. Se fosse dele – disse – em vez de "comer ela" usaria o clítico "comê-la" e trocaria o termo chulo pornográfico por "vagina pilosa" ou mais poeticamente por "gruta-do-amor felpuda".

- A fala é de alguém recém-alfabetizado – sentenciou dona Adelaide, deixando polícia e moradores em estado de alerta. Fazia sentido. Era preciso procurar o criminoso entre seus ex-alunos.

Uma noite, a turma do dominó disputava partida na calçada em frente, quando alguém viu uma sombra se esgueirar pelo buraco feito na "gateira" – aquela abertura gradeada do porão do Grupo Escolar que dá para a rua. Foram atrás e viram estarrecidos o pedreiro Mauro Chibé, que trabalhara na reforma do prédio, com a boca na botija, digo nos canos de argila que ele mesmo instalara ligando o banheiro feminino ao porão infecto. Na época, justificou que era para ventilação. Agora, de lá, usava as manilhas como microfone, que propagava o som como uma corneta: "Mijoooona…".

O efeito acústico era tão tenebroso que parecia vir do além-túmulo. A turma do dominó deu um flagrante no pilantra, submetido à sessão de sabacu. Cobriram-no de porrada e entregaram-no à polícia que, por se tratar de um psicopata, encaminhou-o à psicóloga Odaléa Frazão, seguidora de Wilhelm Wundt, médico alemão cujo livro (Lições de Psicologia Humana e Animal) ajudou a elucidar o mistério e a matar a charada.

Cano de esgoto

Eis o que eu queria dizer: o caso de Jair Bolsonaro (PP-RJ, vixe, vixe!) pode ser comparado ao do Mauro Chibé, conhecido como Myramembeca. O deputado usa o microfone da Câmara como o cano de esgoto do pedreiro: para ofender e ameaçar mulheres com palavras de baixo calão. Nesta terça-feira (9), depois do discurso da deputada Maria do Rosário (PT-RS) a favor da Comissão da Verdade que investigou os crimes da ditadura militar, Bolsonaro, paraquedista, ex-capitão do Exército, subiu à tribuna e dirigiu-se a ela em tom autoritário:

- Falei que não ia estuprar você, porque você não merece. Fica aqui pra ouvir.

Não é a primeira vez que ele agride a deputada. Em 2003, no Congresso Nacional, diante das câmeras da Rede TV, chamou-a de "vagabunda" e deu-lhe empurrões. Desrespeitou a senadora Marta Suplicy (PT-SP), defensora do projeto de lei que criminaliza a homofobia. Tratou com truculência a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), insultou a advogada indígena Joênia Wapichana, discriminou a cantora Preta Gil, injuriou a ministra Eleonora Menicucci (PT-MG), sugeriu que a presidente Dilma era "sapatona" e desacatou a senadora Marinor Brito (PSOL-PA). Tornou-se um agressor profissional de mulheres. Enfim, chamá-lo de troglodita é ofender o homem das cavernas. Ele é o macho dos esgotos.

Diante da representação do PSOL, em 2011, no Conselho de Ética, Bolsonaro declarou que era um partido de "pirocas", "coisa de veados". Agora, outra vez, quatro partidos (PT, PCdoB, PSol e PSB) protocolaram na quarta-feira (10), no Conselho de Ética da Câmara, uma representação exigindo a cassação do mandato de Bolsonaro, o mais votado no Rio de Janeiro. Por que PSDB e PMDB mantém neutralidade nessa questão? Será que é programático? Tal postura, na prática, representa conivência e até cumplicidade com o parlamentar que no exercício do seu mandato viola as leis brasileiras em discursos que fazem apologia da violência contra a mulher e contra as minorias.  Quem se omite referenda e chancela esse discurso.

Como entender os votos dados a Bolsonaro? Que setores se sentem representados por ele quando ataca mulheres e gays? O sociólogo francês Jean Baudrillard tem uma teoria de que as massas muitas vezes elegem um candidato só para rir secretamente do poder. Quanto mais grotesco e mais ridículo, maior sensação de superioridade o eleitor tem individualmente, mesmo que possa sofrer o peso da ira dele. Os insultos de Bolsonaro, no entanto, constituem caricaturas que não nos fazem rir.

Nos últimos anos, Bolsonaro atacou mulheres, sempre mulheres, no melhor estilo Myramembeca. Diferente do pedreiro de Manaus, o deputado não faz isso escondido num porão, mas da tribuna do Congresso com um salário que é pago por nós, contribuintes. Resta saber as razões pelas quais ele odeia mulheres, um assunto que deixa de ser privado quando aflora num discurso público.

No caso do Mauro Chibé, tudo ficou esclarecido a partir de uma pista dada por Wundt, criador do laboratório do Instituto Experimental de Psicologia da Universidade de Leipzig. Dona Odaléa, então professora de Psicologia no Instituto de Educação do Amazonas, vidrada em Wundt, sugere que os apelidos são indicativos do caráter e da psique humana e animal. Por isso, ela procurou o significado de Myramembeca e não hesitou em diagnosticar a virulência de Mauro Chibé contra as mulheres como resultado de sua impotência sexual. O cara era brocha. Bastou consultar o dicionário Nheengatu-Português de Stradelli que registra os verbetes Mbyrá, Myrá – pau, madeira, árvore e Membeca, memeca = mole, tenro, brando.


Altino Machado Altino Machado

Altino Machado

Acreano, ex-repórter dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo




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